Todo o Meu Amor Declarado

Atualizado: 23 de Ago de 2020

E me foi dada a tarefa de escrever sobre cinema. Que tarefa mais impossível! Sobre o que eu escreveria? Sobre um filme? Mas como escolher apenas um? Como é que fazem os críticos? Como eles reduzem a um quando há tanto? Mas mesmo com essa entrada alarmista e ansiosa, continuo com o meu fardo. E então pensei, que não preciso escrever sobre a história do cinema, sobre filmes específicos, sobre diretores e seus estilos. Posso escrever sobre a minha paixão, o meu amor. Posso declarar o meu amor ao cinema. O amor começa lá trás, quando ainda mal se podia ler e pedia ao seu amigo-irmão para ler as legendas de Forrest Gump em voz alta para você. Começa quando entrou no mundo de Jumanji, esperando, como quem espera uma coruja aos onze, encontrar um Robin Williams com um jogo em seus braços na esquina. O amor começa lá quando se explora cada quarto e cada eco d’O Jardim Secreto e jurou que quando crescesse um jardim assim seria seu também. Mas foi aos dezessete que esse amor se assumiu e tomou formas libertárias. Foi aos dezessete anos, que uma adolescente insegura e estranha resolve que queria algo a se agarrar, já que não lhe sobrava nada mais. Resolve que ia assistir filmes, todos os que eu pudesse, em todo o tempo do mundo de alguém que não sai muito de casa, mas sem ser tempo demais, como qualquer início de um grande amor. De forma metódica, como todo o resto da minha vida, eu assisti filmografias, tomei notas e fiz fichas de catalogações. Comecei com Stanley Kubrick. Não sabia bem porque, mas sabia que Stanley (se me permitem chamá-lo assim) tinha algo de sombrio que me caía bem. Meus primeiros foram os clássicos famosos, The Clockwork Orange, 2001, Eyes Wide Shut (que eu já tinha visto) e fui me lançando nos filmes menos populares e igualmente geniais, Lolita, Dr Strangelove, The Killing. A música, a criação de personagens instensos, bizarros e críveis, o design do filme pensado milimétricamente, me mostrou um mundo maravilhosamente alheio, que talvez não fosse tão assim de outro mundo. Todos temos um pouco de Kubrick. O amor cresceu, passou por Hitchcock, Copolla, Welles e tantos outros clássicos estadunidenses e voou. Foi pra França, descobriu Nouvelle Vague, Cahiers du Cinéma, passou pelo sexo escorrido de Gainsburg, descobriu as mulheres de Varda, parou em Fanny Ardant (a quem reitero e delcaro o meu amor diariamente). E o amor voou mais uma vez, agora já no primeiro ano de faculdade, voou e se achou nos países nórdicos, para encarar os conflitos mais conflituosos que se pode sentir de Bergman e seus personagens recorrentes como pensamentos que martelam; meu amor foi pensar Vilgot Sjöman, que traz tantas questões necessárias para quem se descobre como pessoa política e atuante com Os seus filmes curiosos; e meu amor foi ver o desolado e ainda sensível mundo de Wim Wenders. Passou pelos clássicos italianos, pela Espanha, México, Argentina e tantos outros. Meu amor pensou em fazer carreira e graduação em cinema, e então achou morada no Brasil. Mas preciso dizer que para esse amor se encontrar no Brasil não foi fácil, e ainda não é – é sempre um lugar desconfortável. Um misto de síndrome do vira lata com ser muito difícil encarar a própria história, e de não ter folga da realidade impiedosa que vivem os meus e que vive eu.

E aí, já no segundo ano de faculdade, o mundo do cinema asiático se apresenta de forma acachapante, como filmes que estavam ali, me esperando o tempo todo, não só mais madura, como mais empática.


Mas volto e me lembro dos dias e noites tomando notas, dando estrelas e tentando descobrir quem era o diretor disso ou daquilo antes dos créditos. E então tudo mudou, o tempo passou, e comecei a ver o meu grande amor usado para simplesmente fazer seus amantes se sentirem melhores sobre si mesmos, e melhores do que o outro. Amantes tão pobres, tão mesquinhos. E meu amor mudou ainda mais, quando a pessoa que me introduziu ao mundo do cinema e me fazia ansiar as noites debaixo das cobertas, comendo sorvete e um filme ali - clássico ou não, aclamado ou não - se foi, e tudo virou dor, virou impossibilidade, virou lembrança. A vontade de mergulhar na história do outro, de conhecer os amores dos outros, antes tão esperada, me atropela e me afoga.


Mas, meu amor, aos poucos vou te redescobrindo. Sem anotações, sem estrelas, sem listas e sem competições. Mas com cada amante que me empresta um novo olhar, com cada amigo que me ajuda no caminho, vou te redescobrindo e declarando todo o meu amor.
















IMAGENS: I. Forrest Gump. Robert Zameckis. 1994. II. Jumanji. Joe Johnston. 1996 III. O Jardim Secreto. Agnieszka Holland. 1993. IV. The Killing. Stanley Kubrick. 1956. V. Cleo de 5 a 7. Agnès Varda. 1962. VI. O Acossado. Jean-Luc Godard. 1961. VII. Cenas de um Casamento. Ingmar Bergman. 1973. VIII. Paris, Texas. Wim Anders. 1984.




 

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