Para um diálogo com a arte

Atualizado: 3 de Out de 2020


Herbert Bayer, The Lonely Metropolitan, 1932. Gelatin Silver Print. Image: 26.8 x 34 cm. Frame: 47 x 57.2 cm. The Metropolitan Museum of Art.



Ao longo desta semana falamos, no instagram da Bordô (@bordo.inc), sobre a relação, não exatamente pacífica, mas muito produtiva, entre palavra e imagem. Anna Atkins (1799-1871), René Magritte (1898-1967), Bispo do Rosário (1909?-1989), pelos olhos de Hugo Denizart, e Jenny Holzer (1950) foram nossas escolhas para quatro dias de publicações.


Assim, passamos pela super contemporânea Holzer e o peso político de sua série LED, pelo uso mágico-religioso da palavra naquela força criadora que atendeu pelo nome de Bispo do Rosário, pelo humor de Magritte, que expressa, contudo, o vácuo entre coisa representada e representação e pelas estupendas cianotipias de Atkins, nascidas da necessidade científica de mostrar o que não pode ser dito.


Seria até possível falarmos que de alguma maneira os quatro artistas que escolhemos, por mera afinidade de cada membro de nossa equipe, representam quatro pilares da relação entre palavra e imagem: magia/religião, política, filosofia e ciência. Quatro pilares de nossa existência.


Poderíamos também, é claro, ter voltado ao básico até a ut pictura poesis, de Horácio (65 a.C. - 8 a.C), demonstrando como a história da arte ocidental é profundamente marcada pela palavra. A palavra é o lugar de nascimento da arte renascentista, uma vez que a noção fundacional de composição, idealizada pelo humanista Leon Battista Alberti (1404-1472), em De Pictura, surge a partir de estudos capazes de tratar uma obra de Giotto como uma sentença de Cícero (106–43 a.C.), o escritor, orador e filósofo. Nasce, portanto, fertilizada pelo trabalho de um homem das palavras.


Estruturada pela retórica, a arte se tornou narrativa. Aquela arte quer nos dizer algo, contar uma história, ser decifrada. Este tipo de relação entre palavra e imagem foi produtiva historicamente, mas se desgastou e entrou em decadência até dar origem a algo novo. A arte se libertou da narrativa. Ela não quer mais, necessariamente, contar uma história. Ela quer cada vez mais mostrar, transmitir. Não quer ser submetida, objetificada e entendida, mas quer sim ser compreendida, compartilhada.


Logo, a arte passou a se relacionar com a palavra de um novo jeito. Como em Holzer e Magritte, em Duchamp e em Letícia Parente ou em Maiolino, ou em outras obras de Herbert Bayer, ela se tornou tantas vezes parte da obra. A palavra neste novo momento é potente quando é mesmo parte da obra e forma com ela uma unidade. Quando é necessária e complementar. Mas nem sempre é assim. Em uma sociedade tão incapaz de ver de fato as coisas, palavras continuaram aparecendo também em obras de arte como legendas, como apêndices desnecessários e por vezes até excessivamente didáticos.


As obras de arte contemporâneas que lidam mal com a palavra são talvez o retrato mais fiel de uma sociedade que acessa tantas imagens, mas que é tão pouco sensível para um conhecimento de ordem visual. E a incapacidade em ver resulta em uma dificuldade em dizer. Quando dizemos, muitas vezes legendamos em voz alta. É uma dificuldade que nos atinge como sociedade, estruturalmente. É formadora da nossa relação com as imagens e sintoma de um saber muitas vezes esquecido: o saber ver. Mas acontece, e não é raro, de ser difícil dizer algo sobre a arte mesmo quando sabemos ver.


E o que fazer diante disso? Devemos então, como já foi proposto, escolher o silêncio perante a obra de arte? Talvez alguém seja capaz de tentar isso. Eu, como bom geminiano com lua e vênus em gêmeos não posso sequer pensar em defender uma atitude assim perante uma obra que me mobilize. Acredito que é preciso pensar em um modo de dizer a arte, mesmo que seja para falhar-e-falhar-e-falhar de novo na tentativa. “Falhar de novo. Falhar melhor.”, não é o que dizia Samuel Beckett?


Mas como fracassar? Ou melhor, o que falar? Bem, isso depende. Um tanto de conhecimento pode ser necessário para alcançar uma relação realmente estimulante com uma obra. E qual tipo de conhecimento? Sobre a construção formal da obra? Um conhecimento gramatical? Ou contextual? Filosófico? Histórico? Sociológico? Muitas vezes vivência artística, sensibilidade visual e agudeza de olhar bastam. Nem só de erudição vivem bons discursos sobre a arte.


Mas é possível que o “como dizer” seja mais importante do que “o que dizer”. É o que a arte nos ensina, não é mesmo? Produzir um discurso sobre a arte que não leve em conta o fato de que obras de arte são forças vivas que agem sobre nós, que desejam algo de nós e subjugá-las, transformá-las em exemplaridade de um conhecimento já estabelecido antes mesmo de qualquer contato efetivo (afetivo) é um erro em relação ao qual já deveríamos estar em alerta.


Acredito que a melhor forma de lidarmos com obras de arte seja o contrário de uma relação de poder vertical, de um relacionamento abusivo. O diálogo. Não ao texto se impondo sobre a obra. Não às obras que usam das palavras como legendas. A inteligência para a arte está em criar com ela um entrelaçamento, um diálogo, ao contrário do que manda nossa sociedade tão mental, tão dependente das palavras que por vezes dizem menos do que o nosso corpo ou os nossos olhos, estimulados sim pela sabedoria poderiam nos falar.


Como historiador da arte, que deve necessariamente zelar pelo saber histórico, aprendi, contudo, no diálogo com ela, que nem sempre o conhecimento erudito basta. Mais do que entendida, a arte quer ser compreendida. Aprendi também que ela muitas vezes ensina de forma professoral e muitas vezes se impõe.


Para escrever sobre ela, sempre procuro me lembrar das palavras de Georg Lukács (1885-1971), que em seu “Sobre a forma e a essência do ensaio: carta a Leo Popper”, procurou reafirmar a crítica de arte, o ensaio, como forma artística.


Desta maneira, como criadores de discursos sobre a arte, devemos então sempre estar atentos à arte não só para falarmos sobre ela, mas para aprendermos, com ela, como produzir, como dar sentido a ela e ao mundo com palavras que se mal tratadas dizem tão pouco, mas que se exploradas poeticamente, em diálogo com a arte, podem dizer tanto.