Os olhos de quem te olha

Você vai a um museu para ver? Ou para ser visto? E há de se dizer que os olhos não são poucos: os olhos das lentes incessantes, os olhos fugidios dos turistas que buscam a próxima obra. Mas há também os olhos de quem te olha. Que te olham sem nada em troca. Olhos que te olham, te despem e pedem o seu olhar sem pressa.

São os olhos das Gertrudes, das Simonettas, das Jeannes, dos Oswalds, dos Leonardos, das Georginas. Dos Roberts, das Romaines, dos Georges, das Abgails, dos Arthurs, das Lois, e, claro, das Giocondas. Infinitos olhos. Olhos que nos chamam no silêncio, que imperam na subjetividade, e que ainda assim nos falam tanto. Os olhos dos retratos que tanto buscamos pelas galerias e pelas vidas nos olham também. Nos mostram um espelho, um duplo, uma possibilidade de ser que nos dissolve em nós mesmos. Desviamos o olhar. Eles também. ______________________________________________________



Me lembro vagamente de ouvir dizer que num incêndio, a primeira “coisa” a ser salva são claramente seres vivos. A segunda, retratos. Não é dinheiro, não é documento, não são coisas; são as fotos das pessoas amadas, a foto de quem se foi, a foto de um tempo irrevogável.

Muito da força de um retrato reside na conexão de sentimentos e de histórias. E não raramente buscamos nos retratos aquilo de nós que já se foi – ou que nunca veio a ser. Nos buscamos nos retratos e buscamos os outros em nós mesmos. O ser humano no centro, enquanto a mais importante coisa-criatura-criador desse universo.


Voltemos lá em Galileu e Giordano Bruno. A barbárie que levou este a fogueira pode também explicar um pouco do conceito de retrato pictórico como conhecemos hoje. A ideia que eles tanto refutaram, a de se estar no centro do universo, é refletida na ideia que se tem do ser humano enquanto ser com valor supremo intrinseco e epítome das importâncias do mundo. Daí, claro, a necessidade de se representar e de se colocar no centro das pinturas. E ainda que o retrato não estivesse lá no topo das hierarquias das pinturas, era um importante gênero por dois grandes motivos: 1) muitos serviam de prática para as ditas obras “maiores” como a pintura histórica; e 2) com a ideia de individualidade se fortalecendo no Renascimento, era uma boa forma de distinção para os nobres e mais abastados ter um retrato seu, para lembrar a todos e a si da magnificiencia do um, fazendo do retrato uma forma bem rentável para os pintores que muitas vezes trabalhavam por mecenato e comitência. _________________________________________________


No centro do universo, o ser humano. No centro do ser humano, os olhos. Os olhos que expressam uma imensidão de motivos, as testas que nos entregam tanto sem nos dar muitas pistas que escorrem pelo nariz e se entregam às bocas tão enigmáticas. O músculo mínimo da bochecha que se contrai e logo foge toda a pretensão de compreensão e retornamos os olhos.

Sei que já me delongo, mas não poderia ir sem ao menos falar de um retrato em particular. Se me permitem umas linhas a mais e uma puxada para o meu lado, trago aqui uma obra de George Bellows (a quem me refiro carinhosamente como "meu pintor"), “Emma at Piano”.Vemos uma mulher com um manto azul arroxeado, cabelos presos num coque, sobrancelhas finas que não competem com os olhos azuis acinzentados. Um vaso azulado com flores roxas mais claras em cima do piano arredonda a tríade azul, conversando claramente com seu manto e seus olhos. Com uma mão ao piano, seu rosto se vira, como quem é interrompida de uma tentative inibida de tocar.

E vemos seus olhos – que recebem toda a luz e atenção de quem a pinta. Seus olhos que nos dizem tanto! Olhos de mágoa, olhos de irritação, de tristeza, de quem ainda tem tanto a realizar, olhos de alegrias guardadas, de convicções e dúvidas, olhos de quem é muitas em uma só, olhos de amor. E não podia ser menos: é seu companheiro de vida quem a olha e quem a retrata. Os olhos da Emma são também olhos que sabem que serão olhados por muitos olhos olhantes. Olhos que sabem que serão devorados assim sem pedir licença, olhos que sabem que serão diluídos nos dos outros. E talvez tivesse consigo as mesmas questões que temos agora “Que se passa? Quem são vocês, olhos olhantes? Quem sou eu refletida nos seus olhos? Quem é você refletida no meu?”

Nós olhamos para Emma. E a Emma nos olha.






Imagens: I. George Bellows. Emma at Piano. 1914. Painel. 76,20cm X 97,16cm. The Chrysler Museum of Art. II. Lois Mailou Jones. Self-portrait. 1940. Caseína sobre madeira. 44,5cm X 36,7cm. Smithsonian American Art Museum. III. Giovanni Bellini. Portrait of Doge Leonardo Loredan. C. 1501-02. Óleo sobre painel. 61,6cm X 45,1cm. National Gallery, London. IV. Gertrude Abercrombie. Self-portrait of My Sister. 1941. Óleo sobre tela. 68,6cm X 55,9cm. Art Institute of Chicago.