Os Longos Caminhos

Atualizado: 21 de Nov de 2020

Que a obra traz em si a unicidade própria de ser o que é é bem próprio. Ainda que sejam reproduções, lambe-lambe, poster. Ali a unicidade se continua no próprio propósito de sua criação. E cada obra exige um olhar, um enfrentamento diferente, e não poderia ser diferente com a sua exibição e circulação: uma obra em um museu diz algo diferente de uma obra na galeria que diz algo diferente de uma obra na rua.


E até obra encontrar o nosso o olhar são longos caminhos. Ela vai no tempo dela, da forma dela. Até que te encontra, me encontra.


Há o tempo de gesta da obra, uma faísca dentro do artista que não apaga enquanto não se vê sendo criada. Há o tempo de execução, que pode ser rápido como um flash, ou longo como um obra que nunca tem fim.


Aí vem os desejos do artista: se quer que essa obra seja exposta, se há o desejo de venda, se é uma obra conteste. É nesse momento que o marchand atua muitas vezes. Com o apoio emocional que exige ser artista, com as ideias mais claras que muitas vezes se perdem na nuvem de sentimentos, com formas de fazer a obra encontrar novos olhos. O marchand ajuda na escolha de um lugar para exibição, um possível comprador, uma feira interessante, e para qual meios divulgar, quais críticos acessar.


E então o crítico. Ah, o crítico! Pessoa tão temida por uns e aclamada por outros. A ideia que se tem do crítico é daquele ser impiedoso, arrogante e bruto; aquele ser que, com toda classe que lhe é peculiar, irá estabelecer gosto e julgamentos. Mas me pego pensando em Anton Ego, o crítico gastronômico do filme infantil Ratatouille. Ele diz que suas críticas são sempre tão rigorosas porque ele não gosta de comida, ele ama comida. E em sua crítica final ele diz (emu ma tradução livre): "Em muitos aspectos, o trabalho de um crítico é fácil. Arriscamos muito pouco, mas desfrutamos de uma posição de poder sobre aqueles que oferecem seu trabalho e a si mesmos ao nosso julgamento. Nós prosperamos com críticas negativas, o que é divertido de escrever e ler. Mas a verdade amarga que nós críticos devemos enfrentar é que, no grande esquema das coisas, o lixo gastronômico que nos é servido normalmente é mais interessante do que mostramos em nossa crítica. Mas há momentos em que um crítico realmente arrisca algo, e isso está na descoberta e defesa do novo.”

E todos parecem, especialmente o crítico, estar ali porque amam o que experienciam. E por esse amor, muitas vezes artista e crítico desenvolvem uma relação que pode ser de muita confidência, como Jackson Pollock e Clement Greenberg.


Já o leilão é uma experiência por si própria. O estar ali, naquele mundo que respira capital e esbanja artes valiosíssimas, parece ser um sonho suspenso – ou pesadelo para alguns. Adquirir uma obra num leilão é uma experiência bem diferente de comprar uma obra em uma feira. O leilão de arte presencial ainda é muito restrito, quase como um clubinho de gentes-ricas. Mas o leilão online propicia uma maior democratização e é uma ótima forma para o espectador começar a sua coleção. E como bom garimpo demanda tempo, paciência, em que o comprador, assim como o crítico, precisa emitir julgamentos: é entender o mercado, o que vale a pena, o que é de seu gosto, o que está em bom estado.


Cada arte, com cada forma, com cada jeito de se expor e ser exposta. Com o seu jeito próprio de circular, de voltar, de ir e ficar. Cada arte e o tempo que ela pede, e jeito dela de transitar. Ela pede o seu olhar, o seu tempo e a sua entrega para entender, para buscar, para adquirir, o seu próprio jeito de viajar, de conceber e ser concebida. Uma obra não pede muito, mas pede tanto



















Ambroise Vollard. Marchand e galerista. Foi marchand de Picasso e Cézanne. Foto: ArtNet.






















Chales Baudelaire. Crítico e escritor.
















Frans Francken the Younger. A visit to the Art Dealer. 1636. Óleo em cobre. 29cm X 40,5cm. Hallwyl Museum.





















Mary Boone. Marchand e galerista. Foto: ArtNet.














Fonte: Sotheby's website


 

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