O silêncio pandêmico da arte.

Atualizado: 3 de Ago de 2020

I

Por aqui, décimo primeiro dia de quarentena e em uma de nossas tantas conversas, falamos do silêncio - que no meio de tantos gritos, há o pungente silêncio. O silêncio das ruas, das escolas, das pessoas mundanas. O silêncio da dor, do pesar, da morte. O silêncio que irrevogavelmente escancara a ausência, a solidão e a dificuldade de simplesmente existir. Mas há também o silêncio do prazer, dos momentos em que há tanto, que os gritos mais altos não dão conta. E é preciso se falar do silêncio dos que foram calados – aqueles a quem a escolha foi tomada a força e que carrega a marca da barbárie.

II

O silêncio nunca foi estranho as artes. De Bartleby, passando por Edward Hopper, por Susan Sontag, Simon & Garfunkel, aos personagens de Paul Auster, o silêncio sempre se mostrou parte da existência humana. Pausamos em Sontag, quando ela diz da impossibilidade do silêncio na arte - tanto da obra/instalação quanto do espectador. O silêncio se mostra impossível quando há intenção do artista (que sempre diz algo), e quando se há uma plateia ciente (que sempre reage a algo, ainda que não seja reação alguma). Mas cremos na possibilidade do silêncio, ainda que sua neutralidade seja sempre questionável. O silêncio - que para muitos se confunde com inabilidade, desconforto, com impossibilidades, com não ser produtivo, com o não saber, com o não ser - pode muitas vezes incitar o belo, o bizarro e a barbárie (I) que nos é tão corriqueiro.

III

Tudo isso, para postarmos sobre Romaine Brooks, essa artista estadunidense, nascida italiana, que combina silêncio, ausência, morte e solidão. O silêncio das cores mórbidas, dos olhares indecifráveis, dos pianos sem notas, das suas mulheres e amores lânguidos e pálidos, num entre-estar morto. Que as mulheres de Brooks transformem sua quarentena num silêncio possível. Conta pra gente, onde mais vc vê silêncios?









IMAGENS: I. Romaine Brooks, La Venus triste (The Weeping Venus), 1917, Musées de la Ville de Poitiers, França

II. Romaine Brooks, Renata Borgatti, Au Piano, 1920, óleo sobre tela, 141.8 x 188.7 cm, Smithsonian American Art Museum

III. I. Romaine Brooks, Le Trajet, 1911, óleo sobre tela, 115.2 x 191.4 cm, Smithsonian American Art Museum