O sangue flui mais rápido do que tinta a óleo.


Caroline Alves. Doutoranda em História Cultural pela UNICAMP com pesquisas sobre a cultura visual referente a crimes e violência de gênero durante o entresséculos XIX e XX.

As folhas caíam. Sem força, a luz do sol disputava espaço dentre as manhãs de outono. Era sempre vencida. Os poucos feixes persistentes não eram suficientes para proporcionar calor, para iluminar a visão de quem caminhava, tropeçando entre calçadas estreitas. As ruas lamacentas do subúrbio de Camden Town ainda não haviam sido asfaltadas. Ao menos não as ruas onde circulavam mulheres como Emily. Mulheres ainda jovens. Ainda, porque muito cedo, deixavam de ser.


Os quartos onde as prostitutas se refugiavam, abrigando clientes e afetos, não era tão diferente. Tinha o mesmo clima frio, tons cinzentos e corpos cansados. Em um desses quartos, no distrito ao norte de Londres, o corpo de Emily foi encontrado. Dessa vez o corpo nu sobre a cama bagunçada estava diferente. Um longo corte contornava toda sua garganta, revelando outro assassinato. Um artista, Robert Wood, foi identificado como assassino, revelado pela sua bonita caligrafia encontrada num postal. Seduzido pelo crime, seu amigo de profissão Walter Sickert fez uma série de pinturas e ilustrações inspiradas no assassinato.


Nas obras, homens observam mulheres, imersos em uma atmosfera sombria. As vezes as tocam, as vezes agridem. Nós também observamos, tentando entender as ambivalências e as pistas deixadas pelo autor. Qual olhar apresenta uma ameaça? O que deseja esse olhar?

Silêncio. Corpos estáticos. Talvez seja precipitado imaginar que as cenas retratem momentos após o crime. Falta excitação! Falta aquele calor do contato entre corpos que se debatem. A sensação é de estarmos presenciando momentos que precedem o assassinato. Sensações que não surgem do acaso. São conscientemente acionadas através da produção de artistas, escritores e impulsionadas pelas publicações da imprensa durante o final do século XIX. Com sorte e se bem manipuladas, chegavam aos palcos de teatro e ao cinematógrafo.


Virgens suicidas, assassinatos misteriosos, homens transfigurados em fera assolando ruas ao anoitecer. Narrativas carregadas de sangue e suspense, ao mesmo tempo aterrorizavam e atraíam a população. Os penny bloods e seu herdeiro, dreadful, podiam ser comprados por centavos na Inglaterra vitoriana. Vendia aos montes, não apenas em solo inglês. Além da literatura barata em livros e folhetins, histórias sensacionais também ocuparam um lugar importante na imprensa, nas revistas policiais e no jornalismo de última hora. As imagens eram fundamentais na composição do espetáculo, onde se abusava do vermelho sangue, das letras garrafais e manchetes escandalosas que gritavam: “ Mais um crime horripilante!!!”


Apelando aos nervos, era difícil identificar traços de realidade e ficção, mesmo nos acontecimentos recentes... Crimes e assassinatos tratados como histórias extraordinárias, de terror e mistério. Claro, ao menos os excepcionais, os que causavam arrepio. Lima Barreto já alertava! Um “homicídio banal em que se conheceu a causa, o autor, capturado ou não, e outros pormenores, deixa de oferecer interesse para ser um acontecimento banal na vida urbana”[1]. No Brasil, bastava um burburinho e a população corria para as portas dos jornais, onde fotografias de assassinos e vítimas eram afixadas. Os anfiteatros das faculdades de medicina eram sucesso de público. Assim como os visitantes do morgue parisiense, famílias inteiras levando suas crianças, ansiavam pela recomposição de membros e exibição de cadáveres.


Corpos femininos geralmente ocupavam o papel de protagonista. Se Cam torna-se o filho castigado com a pele negra, impondo a servidão aos seus descendentes escravos, Eva, se contrapondo a figura santificada e pura de Maria, encarna a identidade construída de mulheres insubmissas, degeneradas em corpos pecaminosos. Mulheres, sobretudo as fatais, conduziam homens a cometerem atos de loucura. Esse discurso falacioso, diferente das vítimas, sobrevive. Ora nos suicídios cometidos pela mão de outrem, ora nos estupros culposos.


Gostaríamos de concluir reencontrando a jovem Emily Dimmock... Sua história tem sido contada através de outros corpos. O balé de Liam Scarlett que, recentemente também produziu Frankenstein na Royal Opera House, deu movimento as narrativas sensacionais do fim de século, unindo horror, sexo e violência nos palcos de teatro. Curioso pensar que, apesar da passagem de tempo houve críticas, à moda oitocentista, ao caráter grotesco da narrativa. A performance avança transformando os gestos sensualmente delicados dos bailarinos em movimentos de confronto e agressão.


Camas bagunçadas abrigam cenas de crime enquanto os cenários capturam a atmosfera boêmia dos quartos baratos e da vida noturna. Para Michelle Perrot, a história dos quartos é também a história da noite, “do parto à agonia, o quarto é o palco da existência, ou pelo menos seus bastidores, onde, tirada a máscara, o corpo despido se abandona às emoções, às tristezas, à volúpia”.[2] Assassinatos de Jack, o Estripador e a visualidade de Walter Sickert são evocados em cenas de uma beleza mórbida e de uma violência que seduz o olhar. Segundo o editor da Royal Academy Magazine, “blood flows more readily than oil paint”[3].


Notas:

[1] BARRETO, Lima. Clara dos Anjos. São Paulo: FTD, 2016, p. 141.

[2] PERROT, Michelle. História dos Quartos. São Paulo: Paz e Terra, 2011, p. 15.

[3]Walter Sickert on stage at the Royal Opera House publicado em 15 de maio de 2014, disponível em: https://www.royalacademy.org.uk/article/walter-sickert-on-stage-at-the.

Walter Richard Sickert. L'Affaire de Camden Town, 1909. Coleção privada.


Walter Richard Sickert. The Camden Town Murder, c. 1907. Daniel Katz Family Trust.


Ghastly Tragedy in Camden Town. Illustrated Police News, 21 de setembro de 1907. British Newspaper Library, Londres.


Walter Richard Sickert. The Camden Town Murder or What Shall We Do about the Rent? c. 1908. Yale Center for British Art.


Thomas Whitehead e Marianela Nunez em Sweet Violets. Fotografia de Alice Pennefather (https://alicepennefatherdancephotography.wordpress.com).


Sarah Lamb e o bailarino brasileiro, Thiago Soares em Sweet Violets. (https://www.ft.com).


Sweet Violets tem direção e coreografia produzida por Liam Scarlett. Design e cenários por John Macfarlane. (intermezzo.typepad.com).


Thiago Soares e Leanne Cope. Bill Coope, ROH. (https://www.nytimes.com/)


Para saber mais:

DIJKSTRA, Bram. Idols of Perversity, Fantasies of Feminine Evil in Fin-de-Siècle. Nova Iorque: Oxford University, 1986.

KALIFA, Dominique. A tinta e o sangue. Narrativas sobre crimes e sociedade na Belle Époque. São Paulo: Editora Unesp, 2019.

TICKNER, Lisa. ‘Walter Sickert: The Camden Town Murder and Tabloid Crime’, in Helena Bonett, Ysanne Holt, Jennifer Mundy (eds.), The Camden Town Group in Context, Tate Research Publication, May 2012, disponível em: https://www.tate.org.uk/art/research-publications/camden-town-group/lisa-tickner walter-sickert-the-camden-town-murder-and-tabloid-crime-r1104355.

GUIMARÃES, Valéria. Primórdios da história do sensacionalismo no Brasil: os faits divers criminais. ArtCultura, v. 16, p. 103-124, 2014.