O prazer do humor

“Todas as obras de arte são eróticas. Foram feitas para os sentidos e para a imaginação. Estão lá para nos dar prazer, seja de forma direta, seja de forma oblíqua, seja de forma perversa. Até um Mondrian. Até os branco sobre branco de Malécivh. Sobretudo o branco sobre branco de Malévich, diria um brejeiro.” Jorge Coli


Jorge Coli nos lembra que toda obra de arte é erótica pois são feitas sobretudo para satisfazer os nossos sentidos e a imaginação. Diante do trabalho do historiador da arte, que outrora, fora lembrado como silencioso, pelo próprio Coli, o humor e o erotismo parecem face de uma mesma moeda, talvez eles até dividam a mesma face desta moeda. O humor satisfaz, muitas vezes de forma erótica, este trabalhador que sobrevive no silêncio.


As obras de arte conversam com o historiador da arte, mas se trata de uma conversa silenciosa. Elas aguçam os nossos sentidos, nos mostram caminhos, nos dizem coisas. E nós recebemos esses sinais, muitas vezes sem saber como explicar, mas sabemos que eles estão ali. Por isso, a comparação. As imagens conversam entre si. Isso tudo porque elas vivem num universo paralelo, em sua própria dimensão.

Eu gosto muito de pensar que as obras de arte têm vida própria, e nessa linha de raciocínio eu imagino claramente elas nos olhando e rindo da nossa cara em várias situações. Cada passo em falso dado em meu trabalho, as imagino rindo da minha cara. Eu imagino sua ironia, as vezes quase as ouço falando “haha anacrônica”.


Falar sobre humor na história da arte poderia nos levar para vários caminhos. Penso inicialmente na caricatura, que ocupa esse lugar do humor fortemente, mas também na sátira política, dessa crítica que reverbera para vários lugares. Mas me interesso, sobretudo, por outro tipo de humor, não somente aquele intencional, mas aquele que está onde parece não estar, naquelas ironias, na zoeira.


Desde que li um historiador da arte chamado Daniel Arasse simplesmente sinto que encontrei o meu caminho na história da arte. Ele fala sobre o que não se vê, sobre enxergar a ironia das coisas, o humor que está escondido ou não que em muitos casos é analisado muito seriamente. Eu queria dizer ao Arasse “e digo mais" porque não enxergar o humor onde talvez nem haja a intensão do humor.


A “Liberdade guiando o povo”, por exemplo, é uma obra incrível sem dúvidas. O próprio Coli escreveu um livro em que fala tudo o que imagino que poderia ser dito sobre ela. E talvez o que mais me encanta nessa obra seja o fato dela ter sido realizada pelo Delacroix para se referir a um movimento na história que visou legitimar o poder de um cara que se tornou rei posteriormente. No entanto, ela adquiriu outro sentido, e a ela é incorporada uma ideia revolucionária de liberdade ligada a Revolução Francesa. De repente tá todo mundo relacionando essa obra a Revolução Francesa. No quesito ter vida própria, “Liberdade guiando o povo” tem e muita. A impressão que tenho é que ela terminou seu relacionamento com Delacroix, rompeu seriamente e resolveu seguir seu rumo sabe? Resolveu seguir seu caminho, trilhar seu próprio destino e significar aquilo o que ela própria quer: o sentido de Liberdade da Revolução. É desse humor que eu gosto, das ironias do destino, ou melhor das ironias da história da arte.


Eugène Delacroix, A liberdade guiando o povo, 1830.


“As meninas” de Velázquez é outro exemplo. Para além da análise foucaultiana da visibilidade da invisibilidade, do olhar do rei, do poder do rei na tela, eu sempre acabo voltando para a ousadia do artista ali bem ao lado da realeza e do reizinho no espelho embaçado lá atrás. Eu sei que existem outras análises, como a do próprio Arasse onde é possível conhecer mais elementos sobre a história da obra, mas fiquemos hoje com a ousadia do pintor.


Diego Velázquez, Las meninas, 1656. Óleo sobre tela, Museu do Prado, Madrid.


E para finalizar, quer coisa mais interessante e divertida do que “A origem do mundo” de Courbet desse corpo sem cabeça, alí colocado em primeiro plano, com a vulva escancarada bem na nossa cara. E para tornar tudo melhor o artista ainda a chama de um nome sagrado: origem do mundo, de tudo, de nós mesmo. Como de fato é. Então a vulva apresentada com naturalidade por Courbet, que para muitos, beira a pornografia, sobretudo, para as redes sociais, uma vez que sempre somos censurados quando tentamos publicá-la, aparece como algo sagrado e profano ao mesmo tempo.


Gustave Courbet. A origem do mundo, 1866.


E aí chegamos num ponto interessante. E voltamos ao início: toda obra de arte é erótica, porque satisfaz os nossos sentidos. “Liberdade guiando o povo” e “As meninas” são eróticas assim como “A origem do mundo”. Elas nos dão prazer, satisfazem os nossos sentidos e isso nos diverte. O humor e o erótico, gosto de pensar nessa relação.

 

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