Nosso movimento é arte.

Nessa semana nosso instagram (@bordo.inc) foi dominado por diferentes tretas no mundo das artes. A treta, querela, conflito... seja lá qual nome formos dar, têm uma força inegável e uma imensa capacidade de movimentar as coisas. Nem sempre de modo confortável ou amigável, mas que a treta movimenta? Ah, ela movimenta!


E é interessante perceber que nosso projeto na Bordô é regido por esse movimento, por esses conflitos produtivos. O nosso encontro acontece a partir de nossos desencontros, e foi dessa maneira que a ideia de movimento da arte se transformou numa espécie de lema.


Além das tretas entre pessoas e artistas, é muito forte na história da arte a ideia de movimento artístico, no qual grupos de artistas se mobilizam por uma semelhança na concepção de arte, por um mesmo fim. E a partir daí nascem os movimentos artísticos, que se pensados apenas de forma fechada acabam dificultando o trabalho do historiador da arte. É que embora as caixinhas muitas vezes facilitem o entendimento de determinada obra em um determinado período, elas enrijecem a forma de olhar. A obra extrapola essas caixas e acaba se encaixando em muitas outras. Uma obra, por exemplo, pode fazer parte de vários movimentos artísticos. Esses próprios movimentos que tradicionalmente são vistos como lineares e consecutivos, acontecem concomitantes, desordenados, ou seja, movimentados.


A partir do entendimento de como funcionam esses processos e dentro dessas infinitas possibilidades de abordarmos a temática das tretas existe uma que muito nos interessa, a treta da linha e da cor, do linear e do pictórico, do desenho e da tinta, que sobrevive por vários movimentos.


Diderot lá no século XVIII escreveu um “Ensaio sobre a pintura” no qual falava suas ideias, sobre o desenho e a cor. A grosso modo, ele acaba apontando para o ato do desenho, que se relaciona a linha, estar conectado ao aprendizado. O emprego da cor, pelo contrário, não se aprende. Ou você sabe ou não sabe, que portanto, estaria relacionado a genialidade artística.


Vamos ver...quando olhamos uma obra de Eugène Delacroix (1798-1863), como por exemplo a famosa “Liberdade guiando o povo”. Deixaremos de lado toda a história e vamos olhar para as formas, para a força da pincelada, das cores, característica forte nas obras de Delacroix.



Em contraponto, podemos trazer um artista que ia por um outro caminho Jean-Auguste Dominique Ingres (1780-1867). Em sua famosa “Grande Odalisque” Ingres representa uma figura feminina que seria anatomicamente impossível. Mas isso significa que ele desconhece os preceitos básicos do desenho? Longe disso, ele conhece! E ainda assim representa sua figura dessa maneira, ele valoriza as linhas do corpo dessa mulher e as alonga, persegue uma linha rígida e forte, quase perfeita, beirando a abstração.

Diferente de Delacroix que traz o aspecto carnal de suas figuras, construindo-as anatomicamente a partir do colorido, do pictórico. O colorido que vai dentro das linhas de Ingres não se preocupa em construir as vertebras, os músculos, de certo modo ele abstrai essas formas, e é igualmente genial.

Essa treta teórica e técnica se perpetuou na história da arte. Em pupilos que tendiam ou para um grafismo do desenho muito marcado ou com um colorido solto e imponente, ou até mesmo com uma mistura dos dois como é o caso de Chassériau (1819-1856) que aponta para uma junção entre esses mestres antagônicos Delacroix e Ingres o resultado disso é um artista que apresenta um desenho forte misturado as cores que são de tirar o fôlego.



Delacroix e Ingres são só um dos exemplos, mas essa treta entre a linha e a cor, também se estende a ponto de influenciar as modernidades, o modernismo... esta foi uma das tretas que fez com que os artistas tendessem a pinceladas cada vez mais aparentes, rápidas e livres.

Essa quebra do repouso movimenta a arte e quem gosta e trabalha com ela; é também o que nos instiga na produção de conteúdo e ao mesmo tempo o que nos diverte.



Imagem 1: Eugène Delacroix, Liberdade Guiando o Povo, 1830. Óleo sobre tela, 260 x 325 cm. Museu Do Louvre, Paris.

Imagem 2: Jean-Auguste Dominique Ingres, Grande Odalisque, 1814. Óleo sobre tela, 91 x 162 cm. Museu do Louvre, Paris.

Imagem 3: Théodore Chassériau, Venus Marine, 1838. Óleo sobre tela, 65 x 55 cm. Museu do Louvre, Paris.

 

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