Maria

Maria


Maria Martins polindo uma de suas peças para a primeira Bienal (1951)


“[...] não era nada menos que o Amazonas, que cantava nas suas obras, que tive a felicidade de tanto admirar, em Nova York, em 1943. Cantava com todas as suas vozes imemoriais e a paixão do homem, do nascimento até a morte, tal como souberam condensá-la em símbolos mais envolventes que todos os outros [...] Maria soube captar, como ninguém, na fonte primitiva, de onde ela emana, asas e flores, sem nada dever à escultura do passado ou do presente [...]”. Foi assim que André Breton, expoente do Surrealismo, definiu Maria Martins. A partir de 1943, ela foi agregada ao círculo íntimo dos surrealistas e conheceu André Masson, Yves Tanguy e Max Ernst, todos refugiados da Segunda Guerra Mundial.


Em uma entrevista dada à Clarice Lispector, contudo, Maria Martins se disse “anti-ismos” e completou: “dizem que sou Surrealista”. Sua arte, era definida por ela mesma assim: “Para mim, a criação de uma obra de arte é o resultado de ato de magia, de uma afirmação de fé, que leva o artista com toda a lucidez numa vertigem maravilhosa até a criação, materializando o seu íntimo mais profundo, sem nenhuma consideração de estética, tão do gosto de certos críticos sensatos”.


Sua arte era mágica e erótica. Duas palavras que costumam andar juntas. Mas não era aquela do gosto dos críticos sensatos, como ela mesma disse. Era sim o resultado de uma vertigem maravilhosa até a criação, o resultado da materialização do íntimo mais profundo, o que faz com que Maria seja ainda hoje vista por alguns especialistas, apesar de sua recusa em tomar partido dos “ismos”, como uma Surrealista.

Seu método escultórico é comparado à “escrita a automática”, desenvolvida pelo grupo e que deu origem a obras como “Um Cão Andaluz”, de Luís Buñuel, um bom exemplo de como para os surrealistas, assim como para Maria, a arte deveria se liberar das garras limitantes da lógica e da razão, indo além das verdades cotidianas para alcançar o profundo, o inconsciente, o sonho, os desejos.


Não é por acaso que seus trabalhos tenham sido caracterizados como lascivos e obscenos. A obra de Maria apresenta, em um curto-circuito, como que enredadas, a Natureza e a figura humana, mais especificamente o corpo feminino, incluindo o sexo. Não há pudor, mas sim erotismo. Não necessariamente o erotismo do sexo, mas sim aquele das formas. O prazer da arte.


Maria bebeu na fonte que dá a força imemorial a um certo tipo de arte e deu vida à mitos, como em Prometeu e Orfeu. Tornou impossível que esquecêssemos de suas origens tropicais ao nos apresentar seu Brasil, em Amazônia, Boiúna, Aiokâ, Iacy e Boto. Mas toda sua obra foi muito brasileira, mesmo quando não trabalhou sobre temas nacionais e passou a trabalhar com suas Lianas ou quando criou, a partir do Zaratustra de Nietzsche seus maravilhosos Cantos e até mesmo quando abandonou estas formas orgânicas, cada vez mais abstratas com o passar dos anos, para produzir objetos que remetem a esqueletos.


Ao apresentar pela primeira vez seu trabalho em seu país, em 1950, num momento em que o Brasil havia saído de uma Ditadura para cair nas mãos de um militar conservador, sucedido pelo maior líder popular que os brasileiros haviam visto até aquele momento, de volta então ao poder, Maria foi hostilizada e repelida pela crítica, pela opinião pública. O Brasil que a rejeitava era aquele da geração que tentaria construir, entre dois regimes autoritários e repressivos, um Brasil solar, voltado para o futuro e para o Progresso.


O samba só servia para inspirar a nova música, a bossa-nova. Os barroquismos só serviriam para projetar o modernismo brasileiro, tão alvo, planejado, racional. Um avião sem qualquer assento reservado para o passado. Se o Surrealismo ganhou potência no entreguerras europeu a ponto de ser reconhecido em um ensaio de Walter Benjamin como “o último instantâneo da inteligência europeia”, após o fim da ingenuidade da Belle Époque, soterrada violentamente pela bestial força da Grande Guerra, a obra de Maria foi olvidada pelo Brasil, que não queria saber da força sensual de sua escultura e nem de Cobra Grande ou de Samba ou de Yemanjá.


Sem título / Untitled [Canção perdida?], s.d. / n.d


Um Brasil que sonhou com seu futuro sem olhar para a potência de seu passado e que ao tentar se distanciar da onda de autoritarismo que havia atingido o país até o fim do Estado Novo, em 1945, não viu chegar aquela que já vinha se formando e que atingiria em cheio sua frágil democracia, em 1964. “A insensatez”. Maria confessou saber que suas deusas e monstros pareceriam sempre sensuais e bárbaros. Acredito que tenha errado no “sempre” ou ao não imaginar que viria um tempo em que sua imaginação sensual e bárbara, seria abraçada por um Brasil que agora delas precisa.


Nos últimos vinte anos a mulher relegada pela força erótica e mágica de sua arte vem sendo relembrada e sua obra está vista e revista. As sementes daquele entrelaçamento entre corpo e Natureza, plantadas por Maria, brotam das profundezas, quando precisamos delas. Acontece que uma época se lembra, muitas vezes, daquilo que ela precisa se lembrar em seu passado. É possível que seja hoje o dia em que mais precisamos daquilo que Maria sonhou. Hoje, quando nos deparamos com uma nova onda de forças repressivas que nunca nos abandonaram, enxergamos nas esculturas de Maria a potência monstruosa e sensual do Brasil.


A mulher e sua sombra, 1946. Escultura em bronze, 143.4×179.7x 59.4cm. Palácio do Itamaraty, Brasília.