Histórias Secretas

A vida no entresséculos mudou. Se mais ou menos do que em outras épocas, díficil dizer, não somos onipresentes e carregamos sempre a mácula do nosso tempo. Mas é fato que os séculos XVIII e XIX abalaram as estruturas sócio-culturais, o que Eric Hobsbawn viria a chamar tão famosamente de a Era das Revoluções. Foram muitas e foram drásticas, mas foram também aos poucos e lentas, e que Hannah Arendt remonta lá nos idos da Grécia Antiga e da civilização romana – as contradições próprias de uma época moderna.Arendt traz o particular em ideias do que é privado, no sentido cru de posse (ou a não posse), como aquele que de fato “é privado de algo”, de esferas cravadas numa possível divisão ontológica mas que nunca, de fato, se divide e se separa completamente. Aliás, argumenta Arendt que isso é um fenômeno embrionário moderno, e que o que vem depois é a simbiose dessas duas esferas. Arendt fala ainda que a diferença entre as esferas públicas e privadas é a mesma entre o que deve ser ocultado e o que deve ser exibido e que é apenas na Modernidade que se percebe a variedade de relacões simbólicas que se travam nas estruturas da intimidade.


E aí ao pensarmos a arte brasileira no entresséculos, é enriquecedor que pensemos nas diferentes esferas sociais. É claro, que tanto Arendt quanto Hobsbawn falam de um context europeu, mas ainda que não tenhamos tido nenhuma Grande Revolução, ainda que a nossa construção de unidade daquilo que nos é civil seja diferente, é notório que sofremos de várias das mesmas inquietações daquela época. Onde antes havia nobreza, há agora burguesia. Onde antes havia privilégios de sangue, há agora privilégios de posse, tanto aqui quanto acolá.


No seu famoso livro, A Era das Revoluções, Hobsbawn ecoa (ou impõe) uma ideia de que a arte pictórica foi deixada de lado e por muito superada pelos seus pares artísticos, como a literatura e a música. E essa parece ter sido uma ideia, de certa forma, generalizada. Erronamente, como mostramos continuamente aqui nesse espaço. Mas talvez esse fenômeno seja pela incorporação ao mundo do sensível do que é privado na escala de privilégios, do que antes era da esfera do feminino e por conseguinte do oculto.

E aí temos a obra “A Má Notícia” de Belmiro de Almeida. Uma tela que mostra o que antes deveria, pelos tantos códigos, ficar na casa, no privado, na propriedade. “A Má Notícia” traz os sofrimentos de uma mulher para o primeiro plano, traz o subjetivo e o eu como merecedor do olhar – o privado que se dá a ver.


Mas não é só Belmiro, é Almeida Junior, com o seu minucioso “O Descanso do Modelo”. O pintor retrata uma cena íntima, em que a modelo e o pintor dividem um momento. Em lugar dos mais burgueses e dos mais aconchegantes, cada detalhe faz a diferença: o papel de parede floral, os diversos instrumentos à mostra, as costas da modelo sem qualquer sinal de tensionamento, mas principalmente, os olhares trocados entre pintor e modelo. Mais uma vez, o privado que se dá a ver. Até mesmo Rodolfo Amoedo, famoso pintor de “O ´Último Tamoio”, traz para a eternidade das telas o íntimo da vida na obra “O Atelier”, em que mostra uma mulher, em um vestido preto contrastante com a sua pele branca, reclinada em um sofa, confortavelmente vendo possíveis testes do pintor. A esfera do privado parece impregnar o mundo social.


Junger Habermas, em um de seus textos sobre a esfera pública, diz que a compreensão de humanidade burguesa baseia-se na autocompreensão das esferas íntimas e públicas e dos conceitos de autocompreensão, em articulação com os conceitos de subjetividade, autorrealização, formacão pessoal da opinão e das vontade, como orientadores do Estado, que por sua vez os repele e os repulsa. E aí temos, concomitantemente, Pedro Americo e sua esplendorosa “Batalha do Avaí”, uma tela de 11 metros por 6, que com um título autoexplicativo, retrata a Batalha do Avai – ou ao menos uma versão de uma das batalhas da Guerra do Paraguai; temos também Victor Meirelles, com sua “Batalha dos Guararapes”, menor do que a grandiosa obra de Americo, mas ainda com seus majestosos 5mX9,25m. Com estilos e técnicas diferentes, esses dois pintores são conhecidos por aquilo que há de mais público nas esferas sociais, as guerras – ainda que tais guerras muitas vezes sejam impulsionadas pelas microcomposições da vontade – , mas coexistem no entresséculos com temas do privado, como a obra Arrufos: público e privado que se repelem e se alimentam.


“Arrufos”, também de Belmiro de Almeida é pilar para esse texto de diversas formas, é uma obra que escancara aquilo de mais privado em todos os seus sentidos: a relação de um homem com uma mulher. Na tela vemos objetos caídos ao chão, um ambiente emocional desconcertantemente eriçado e um homem esguio, impassível, com um olhar ao longe, fumando calmamente seu cigarro. Ao chão, vemos uma mulher debruçada,e não vemos seu rosto, apenas sua lateral que está apoiada em seu braço. Ao lado da mulher, vemos uma rosa ao chão, despedaçada, que muito bem poderia ser a própria mulher. “As sociedades modernas possuem uma história emocional secreta, mas prestes a ser completamente revelada. É uma história das buscas sexuais dos homens, mantidas separadas de suas identidades públicas” diria Anthony Giddens, na introducão de sua obra “A Transformação da Intimidade”. Nosso lugar em “Arrufos” é o logo antes, é o quase, é o limiar do público e do privado.


“Arrufos” é a história secreta que se dá a ver.




















Belmiro de Almeida. A Má Notícia. 1897. Óleo sobre madeira. 1,67cm X 1,68cm. Museu Mineiro, Belo Horizonte.





















Almeida Junior. Descanso do Modelo. 1882. Óleo sobre tela. 98cm X 131cm. Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.





















Rodolfo Amoedo. O Atelier. S/d. Óleo sobre tela. 48cm X 64,50cm. Coleção Particular.




Pedro Americo. Batalha do Avai. 1877. Óleo sobre tela. 600cm X 1100cm. Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.



















Victor Meirelles. Batalha dos Guararapes. 1875-1879. Óleo sobre tela. 500cm X 925cm. Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.






















Belmiro de Almeida. Arrufos. 1887. Óleo sobre tela. 89,1cm X 116,1cm. Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.