Helios Seelinger - A vida criada como obra de arte.

Por Heloisa Seelinger

Doutora em Psicologia pela UFRJ. Neta de Helios Seelinger.

Tem desenvolvido pesquisas sobre o artista, desde 2003, quando defendeu sua dissertação de mestrado também pela UFRJ.




"Aquele que teve crueldade consigo mesmo e tudo

sofreu e tudo venceu, não se resignou, para superar-se,

chegou à suma categoria do Super-Homem."

(Nietzsche)


Na coluna Notas Sobre Arte, no Jornal do Commercio, do dia 28 de fevereiro de 1897, fala-se da chegada de agradáveis notícias de uma carta de Munique sobre dois brasileiros que lá estavam estudando pintura, “A pequena colônia brasileira é formada dos artistas Fiuza Guimarães, pensionista de nossa escola de Belas Artes, e de Helios Seelinger que aqui se tornou conhecido por um gênio desordenado e por marcada aptidão para caricatura” [1].


A mais remota presença de Helios na imprensa traz o embrião do Helios Seelinger rumo à sua desmedida e profusa persona.


O gênio desordenado não se detinha à criação de suas obras. Destacando-se como pintor, caricaturista, agitador cultural, carnavalesco, e tornando-se uma figura alegórica. Estreou como caricaturista [2], já ocupando página inteira em 1894, com então dezesseis anos, na Revista Teathral, de Alvarenga Fonseca. Em 1916, participou da criação do Salão dos Humoristas. Propagou o movimento Chove no Molhado, por ele criado logo após Semana de Arte Moderna de 1922. O Chove no Molhado tinha como sede os bares da boêmia paulista durante os anos 1920, posteriormente acontecendo no saguão do Museu Nacional de Belas Artes e bares da Cinelândia, no Rio de Janeiro. Mesmo sendo itinerante ao longo do fechamentos dos botequins, desenhou sua Ata de Fundação. Segundo o artista, o movimento não era nem contra nem a favor da Arte Moderna. Era um movimento humorístico! Chove no Molhado rendeu, existindo até 1960.


Na década de 1950, Helios Seelinger elaborou um projeto artístico composto do álbum München Rio de Janeiro Paris 1896-1914 e mais 10 manuscritos intitulados Minha Vida Anedótica Bem Vivida 1878-1958. O álbum se compõe de inúmeras incursões estéticas interagindo com as fotografias; desenhos, caricaturas, recorte-colagem de revistas da década de 50, cartões postais fin-de-siècle de sua estadia na Europa. Os manuscritos dão tratamento às suas memórias no estilo crônica e aforismas, sua tônica são os relatos de suas blagues, acompanhando o mesmo tratamento estético com fotografias, caricaturas e recorte-colagem. A leitura de seus manuscritos expõe sua irreverência diante do status quo. Algo bastante comum num caricaturista, não é mesmo?


Minha Vida Anedótica Bem Vivida, pertence ao acervo documental do artista composto por correspondência pessoal, documento institucional e profissional, fotografias avulsas e demais anotações avulsas. A relevância de seu acervo é inquestionável, podendo-se conhecer a intencionalidade e as estratégicas de divulgação sobre si mesmo, além de se extrair possíveis compreensões sobre suas filiações estéticas e filosóficas. Ou seja, nele encontramos sua proposta metartística, o Helios Seelinger criado por ele mesmo.


Capa de Minha Vida Anedótica Bem Vivida. Acervo Helios Seelinger.*


A ênfase sobre sua persona humorística decorreu de cuidadosa elaboração entre o artista e seu amigo inseparável, Luiz Edmundo. Com grande divulgação desde sua coluna Para Ler no Bonde, no Correio da Manhã, atravessando seu O Rio de Janeiro do Meu Tempo, Luiz Edmundo apresenta Helios Seelinger pelo viés de sua mais instigante característica, a do Artista como um ideal de vitalidade. Ou seja, no lugar de honorabilidade, a égide demolidora do humor.


Além das crônicas de Luiz Edmundo, Helios cercou-se de um espectro de histórias de transmissão oral criadas por ele mesmo. São histórias de fatos ocorridos ou não. Mas que circulam no melhor estilo ‘cada um que conta, aumenta um ponto’. De meu conhecimento, na atualidade, Claudio Valério Teixeira é o maior contador dessas histórias. Ainda que eu não conte histórias com a graça do Cláudio Valério, trago uma dentre tantas:


Um político influente, de moral ilibada, procurou Helios pedindo que alcovitasse um encontro entre ele e sua modelo. Pedindo para que tal ocorra no mais absoluto sigilo. Afinal, ele era conhecido, tinha muitos adversários e seu casamento seguia regiamente os princípios da Santa Madre Igreja. Helios, por sua vez ponderou que a moça poderia se ofender. Ou poderia pedir extravagâncias, fazendo tal desejo lhe custar caro. No mesmo momento, o deputado prontificou-se:

-Diga a ela que pode pedir o que quiser!

Passados alguns dias, volta a procurar Helios.

- Então já tem a resposta?

Helios responde que ainda não, pois a moça estava em dúvida. Era difícil convencê-la. A moça pretendia casar-se e coisa e tal. O deputado, não hesitou:

-Casamento?! Diga a sua modelo para pedir o que quiser de mais caro! Uma boa joia lhe pagará o casamento perdido.

Chegou o dia da resposta. Helios disse ao desejoso político que a convencera com muito custo.

-Então homem, o que ela pediu?

- Ela quer que você chegue na penumbra do meu Ateliê. Entre com um champanhe francês e a beije nas nádegas.

-Só isso?! Nenhuma joia, nenhuma viagem! Exclamando de felicidade e certa desconfiança.

-Sabe como é ... Ela vive no meio artístico. Não tem interesses materiais. Quer viver um romance, justificou Helios!


No dia marcado, o deputado entra em plena penumbra carregando o champanhe e flores. Todo almofadinha. Caminha até divã, onde uma luz se dirigia às nádegas de seu objeto de desejo. No impulso, se debruça e beija. Neste instante as luzes se acendem! O ateliê de Helios estava abarrotado de gente, artistas, intelectuais, políticos, inclusive os adversários políticos do deputado ... Só não estavam presentes a sogra e a esposa, que foram poupadas. Assustado sem saber para onde olhar, o político se vira dando de cara com o Helios levantando-se do divã!


O que Helios se referia por blagues, trata-se de teatralizações, algumas cômicas, outras pantomimas, em acordo prévio com os participantes. Algo similar às pegadinhas de hoje. Muitas tinham pré-produção e produção, com composição de figurino e cenário. Ocorriam nos encontros do meio artístico e político, ou em situações cotidianas. Visavam enganar quem não soubesse do acordo, surpreendendo por sua total irreverência.


As blagues estão presente tanto na versão literária de Luiz Edmundo quanto no boca a boca da versão do Helios. Um ponto comum entre elas é a inadequação diante às normas sociais, entendendo estas como elitistas e repressoras. Da origem de suas blagues, destacamos duas que nos conta sobre o período como aluno na Escola Nacional de Belas Artes de 1893 a 1895.


De 1888 a 1896 estudei no Brasil. Pedro Weingartner era minucioso, mandava desenhar até anatomia de folha. Depois veio o professor com Belmiro Azevedo, a aula alegre, fazia-se blague. K.lixto pintou um guarda-chuva no chão e eu fiquei como verdadeiro atrás da porta esperando. Entra o professor Amoedo e deixo cair o guarda-chuva. Com o ruído, olhando para o chão, professor Amoedo abaixa-se para levantá-lo. Decepção! Se a primeira pode ser compreendia como simples travessura, já na segunda há o esboço do jovem com um gênio desordenado. Colocamos uma toalha cobrindo uma parte da janela, aparecendo somente por de trás desenhados pés e cabeças em beijos. Professor Belmiro entra e levanta a toalha para ver o que estava encobrindo e lê – Seu Frouxo... K.lixto foi suspenso e eu tive que acompanhar as aulas com Henrique Bernadelli em seu ateliê da Rua do Resende.


Ao que tudo indica suas aulas não foram transferidas em decorrência somente dessa blague, mas de tantas outras. Certamente, conferindo o título enfant terrible por sua passagem na ENBA.


Igualmente instigante é o projeto de criação de presumidas autorreferências. Neste criou-se uma assepsia de seu passado. Ocultando-se e fantasiando sua origem. Três autorreferências circulam até hoje. A primeira, bastante replicada, nasci na Rua da Vala. Esta impõe-se sobre qualquer dado de realidade, independentemente do tão fácil seja verificar que a Rua da Vala virou Rua Uruguaiana muito antes de seu nascimento. Seguidamente vem a famosa, O açougueiro vendo seus desenhos no muro do Convento Santo Antônio disse para tia Elisa, o menino dá pra coisa, põe ele pra estudar pintura. Encontrando-se aqui o senso crítico e o narcisismo a nos dizer, sou tão bom que até um açougueiro reconheceu meu talento. Importante levar em conta certa equivalência entre a ideia de açougueiro e crítico de arte. Aliás, no século 20 chamar algum profissional de açougueiro era uma comum desqualificação. Helios realiza tal intento através de seu humor sarcástico em ressonância com sua charge ‘O crítico de arte’. Por último, quando criança saia da cama e subia em caixotes para ver as coristas do cabaré Suzano Castero. Nessa vemos um pequenino travesso e um tanto libidinoso, tal como o artista externalizou tantas vezes em sua pintura, e mais ainda em sua performática presença no cenário artístico de fin-de-siècle. Levando de quebra, a afirmação de sua masculinidade.


Recorte de revista. Acervo Helios Seelinger, arquivo anotações avulsas.


Essas alegorias podem ser lidas como narrativas inspiradas no estilo das biografias apologéticas de sua época. Estas que ressaltavam os grandes homens desprovidos de vaidade, modestos e predestinados a alcançar notoriedade devido unicamente ao talento que possuíam. Tratando-se de Helios, teria que ser atravessado por seu traço caricatural.


Cabe trazer à tona, suas autorreferências alegóricas passaram a ser frequente em suas entrevistas assim como nos relatos de seu sobrinho Jeronimo Seelinger Fleury sobre o artista, a partir da década de 1930. Em contraste com sua entrevista para Angyone Costa em ‘A Inquietação das Abelha’ de 1927, na qual há fidelidade aos fatos tantos nos aspectos pessoais quanto familiares.


Mas vamos então aos fatos ocultados no advento Helios Seelinger.


A família Seelinger tem origem em Germesheim, Reino da Bavária. Seu avô Johan Jacob Seelinger era jornalista e dono de um jornal em Sarre. Chegou ao Brasil em 1858, com a esposa Elizabetha Katharine Sauter (nome de solteira) e os filhos Elisa, Emma, Theodor, Hermann e Alfred. Emma morre solteira, de febre amarela, em 1860. Theodor retorna à Munique em 1864, não voltando ao Brasil. Hermann, pai de Helios, com 17 anos no momento de sua chegada, trazia consigo estudos realizados em Speyer e Strasbourg de caligrafia, desenho figurativo, desenho industrial, litografia e tipografia, falando fluentemente inglês, francês e latim. No Brasil formou-se na Faculdade de Medicina e Farmácia em 1869. Seu tio Alfred, tornou-se Alfredo Seelinger, aluno laureado na AIBA, caricaturista na Bazar Volante entre 1860 a 1864, professor de desenho figurado no Liceu de Artes e Ofícios de 1870 a 1875. Além de tenor no Theatro São Pedro. Tia Elisa permaneceu solteira. Foi tutora dos sobrinhos e administrou os bens e as finanças deixados por seu irmão. Há relatos dela ter sido professora no Colégio Inglês para moças, no Catete. Teve um vida longeva. Morreu em 1914, aos 89 anos.


Mr. Mourize Caulliraux e Marie Josephine Siebert (nome de solteira), chegaram em 1856, vindo de Paris. Os Caulliraux foram comerciantes bem estabelecidos. Sua avó possuía um ateliê de modista ‘Mme. Caulliraux’, na Rua da Assembleia 102. Sua filha Carolina Josefina, mãe de Helios, trabalhou no ateliê até se casar (ao que tudo indica, a única filha dos Caulliraux nasceu no Brasil). Seu avô possuía uma barbearia e cabeleireiro na Rua do Cano 52, atual Rua Sete de Setembro. Seu tio Maurício Caulliraux foi um dos diretores dos Felicianos e comerciante do ramo de relojoaria, estabelecido na Rua dos Ourives. Seu outro tio J. J. J Caulliraux, atuava no ramo de fantasias de Carnaval e figurinos para o Theatro São Pedro, sua loja ficava na Rua do Theatro 37. No tocante à ascendência greco-francesa, por demais mencionada pelo artista, até hoje não encontramos seus antepassados gregos.


Contudo, Hermann e Carolina se casaram em 14 de outubro de 1877, indo morar na Rua da Alfândega 385. Em 1880, fixaram residência à Rua do Catete 83A, para onde Hermann transferiu a Pharmacia Seelinger, anteriormente localizada na Rua Uruguaiana 66. Sendo então na esquina da Rua do Catete com Rua Barão de Guaratiba que Helios irá morar até ser embarcado para Munique, em 1896. O que não ocorreu somente pelo interesse em seus estudos, ainda que sua tia Elisa tenha sido aconselhada por Henrique Bernadelli.


Em Munique tio Theodor e Georg Morin estavam à espera do jovem com um gênio desordenado. Morin era amigo de longa data da família [3]. Enquanto seu tio Theodor o vigiava, Morin ficou encarregado de orientá-lo. Sua estadia estendeu-se por quatro anos e meio, voltando em 1902, às vésperas de cumprir o protocolo de entrar na igreja com sua irmã Emma, que casou com Antônio de Pádua Fleury. Ou seja, após inúmeras cartas de ultimato da tia e apelos da irmã.


A razão da investida dispendiosa, especialmente para quem tinha uma moça fazendo enxoval para se casar com um dos netos do Comendador António José Francisco de Pádua Fleury, descobrirmos em seu acervo documental, no setor cartas particulares.


Na carta de 10 de julho de 1897, há uma anotação à margem superior, manuscrita e posterior a data original, Laudelina foi o meu 10 amor, morena bonita, tinha a minha idade, amulatada de cabelos pretos ondulados. Fugiu de casa para vir morar comigo... Veio a separação – casa com um bombeiro é feliz e teve vários filhos. No texto para tia Elisa, lê-se recebi uma carta do Aurélio (Figueiredo) em que me diz que Laudelina está para casar, com uma pessoa da casa onde está empregada. Amores – amores...


A atitude de sua família vai deixando entrever ‘sua gente virtualmente honesta, criada na prática de princípios austeros’ [4], e especialmente sua tia “educada dentro do rigorismo das praxes teutas” [5].


No que diz respeito aos anos 1897 e 1898, suas cartas apresentam predominantemente a tristeza em passar datas festivas longe da família, a saudade da irmã e o recebimento de presentes e ajudas financeiras por parte de amigos da família, pelos quais manifesta humildade e gratidão. No mais, relata suas aulas com o professor Ažbe, fala do progresso em seus estudos, da convivência com a comunidade brasileira e viagens com Fiuza para países vizinhos. Essas boas novas ocupam boa parte de suas mensagens. Nos interstícios entre as verbalizações de tristeza/saudade e o diário de bordo do sobrinho/estudante aplicado, vai se desenhando o homem capaz de gerir sua vida financeira. E o mais importante contado de modo radiante, passou a fazer sucesso com as mulheres.


Há algo importante para se escutar. Trata-se das afirmações aqui estão me dando valor, enquanto que no Brasil eu não passava de um molambo. Tais falas tornam perceptível ressentimentos, considerável baixa autoestima e sentimento de rejeição do jovem Helios, remetendo a sua recorrente fala sobre a perda prematura dos pais e ao tom apologético ao mencionar a bondosa titia. A dissonância entre o que é dito e falado ecoa junto ao saber do senso comum que diz: por detrás de todo palhaço, habita um melancólico.

Mas sua correspondência também serve para evidenciar o advento Helios Seelinger.


Diante da intenção da tia Elisa em fazê-lo retornar, o jovem responde em 18 de setembro de 1897, da seguinte maneira: Eu de minha parte não desejo ir para o Rio de janeiro sem pelo menos ter feito alguma coisa em Arte. Mas como titia quiser, faço o que quiserem (...) Não imaginas como eu sou querido e amado e apreciado em meus trabalhos. Trabalhando muito tenho conquistado nas mulheres simpatias (...) Da maneira como eu estou hoje em meus estudos, posso levantar a cabeça perante este mundo todo cheio de ilusões e falsidades. Enfim, espero a resposta imediata, para que eu esteja mais tranquilo. Enfatiza ao concluir, Tomei a resolução de ser alguma coisa mais tarde e só voltarei ao Brasil coroado no êxito.


Em várias cartas encontra-se seu projeto de ser artista. Nestas há afirmação da vida em vir a ser, proclamando me tornarei um grande artista, voltarei dando a volta por cima, farei coisa grande em Arte.

Helios construiu o artista Helios Seelinger de tal forma que abre para as questões: Teria consciência da sua capacidade de transformar o sentimento de desgosto em fonte inesgotável de percepções originais, estéticas e existenciais? Teria o artista conhecimento da filosofia de Nietzsche? Saberia que o viés transgressivo de sua persona o libertava de um vida repetitiva, cheia de sintomas e sofrimentos?


Cabe ainda informar, Minha vida Anedótica Bem Vivida foi nomeadamente endereçada aos historiadores da arte, humoristas e psicanalistas. O que nos dá pistas que seu autor tinha a dimensão da convergência entre a ética e a estética pertinente a sua proposta metartística. Ciente que a tendência em borrar o limite arte-vida lhe conferia possibilidades de ser sempre outro e ele mesmo. Sempre Helios e a persona alegórica. Sempre Seelinger e o artista. Sempre Helios e o caricaturista. Sempre Helios Seelinger e o pintor. Cursando uma trajetória pelo pleno gozo de si, superando a si próprio por si mesmo.


[1] Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=364568_08&pesq=Helios%20Seelinger&pasta=ano%20189&pagfis=24079. Acesso em: 08.out.2020.

[2] Suas caricaturas eram assinadas somente por Helios.

[3] Georg Morin foi jornalista, publicitário e poeta. Escreveu em 1872, no Jornal Walhalla, da Baviera o perfil biográfico ‘Alfred Seelinger: um artista bávaro no Brasil’.

[4] Costa, Angyone. A inquietação das abelhas. Rio de Janeiro, Pimenta de Melo & Cia, 1927. Disponível em: http://www.dezenovinte. Net/

[5] Idem.


*As imagens contidas no texto foram gentilmente cedidas pela autora, que detém a guarda de parte do acervo legado por Helios Seelinger.


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