Desenho e disegno em Helios Seelinger

Atualizado: 24 de Out de 2020

Por João Brancato Doutorando em História pela UNICAMP, com a tese

"Helios Seelinger e a arte brasileira: trajetória e produção artista de um pintor"


No âmbito das academias de arte europeias, o desenho constituiu-se como uma ferramenta essencial no aprendizado dos artistas. E não foi diferente no Brasil. Ao longo do século XIX, na Academia Imperial de Belas Artes – instituição oficial de ensino artístico no país, originada a partir dos moldes da academia francesa –, os alunos eram incentivados ao aperfeiçoamento do desenho desde o seu ingresso, seja através da cópia de gravuras didáticas e de moldes de gesso até o estudo do modelo vivo. Só após o domínio do desenho era que os postulantes à pintura ou escultura, por exemplo, pegariam nos pinceis ou cinzeis. Esse aprendizado, por etapas, visava a conquista da técnica de descrição no papel das formas observáveis no mundo sensível, mas também a capacidade de sua abstração, transmutando o real observado em ideal desejado. Em outras palavras, “elevando” as formas da natureza, e sobretudo o corpo humano, em formas que se compreendiam superiores – cujo padrão remontava ao mundo clássico, principalmente às esculturas da Grécia Antiga, que se converteram em modelo canônico para uma longa linhagem de artistas no Ocidente desde então. Em grande medida, os sucessivos movimentos de ruptura nas artes ao longo do século XIX visaram o ataque sistemático à manutenção desses modelos, que constituíram uma tradição artística longeva, bem como às Academias, fundamentalmente o espaço mais representativo de conservação dessas práticas. [1]

Sobre a formação transnacional do artista Helios Seelinger (1878-1965) - pintor já comentado aqui no blog [2] - entre finais do século XIX e princípios do seguinte no Rio de Janeiro, Munique e Paris, é possível encontrar vestígios de desenhos desse período inicial. Alguns deles, conservados no Museu Dom João VI, no Rio de Janeiro, já foram inclusive comentados pelo pesquisador Arthur Valle. [3] São estudos de modelo vivo (Imagem 1) – habitualmente chamados de academias – praticados em Munique, no ateliê privado de Anton von Azbe e datados entre 1900 e 1901. O sintetismo das linhas e o claro-escuro acentuado apresentam significativas diferenças em relação ao tipo de estudo realizado a mesma época no ensino artístico brasileiro. Diferenças essas decorrentes justamente das já citadas pressões sobre os sistemas artísticos da época, que viabilizaram novos espaços de ensino e atualizações na prática pedagógica das instituições oficiais.

Mas o desenho não representava apenas um estágio inicial de formação, esquecido depois de passado o momento de aprendizado. Dominado, ele se tornava essencialmente um modo de pensar. Historicamente, a palavra “desenho” guarda outras conotações no mundo das artes, oriundas do Renascimento italiano, que escapam da definição mais habitual relativa ao trabalho com o lápis ou o carvão, circunscrevendo as formas das coisas e criando volume através dos jogos de luz e sombras. Por desenho, ou a partir do italiano “disegno”, compreende-se o processo de concepção da obra, a ideia primeira, o que em algumas concepções filosóficas, de base neoplatônica, associava diretamente o trabalho do artista ao trabalho operado por Deus. Tal concepção provou-se bastante didática através do pintor maneirista Zuccaro, que por meio de um sagaz anagrama estabeleceu o “disegno” como “segno di Dio” – o sinal de Deus. [4]

Também podemos refletir sobre essas acepções do desenho, como traço e como projeto, em muitos esboços de obras de Helios Seelinger. No início da década de 1910, o pintor encontrava-se em Paris a fim de executar a decoração do Salão Nobre do Clube Naval, localizado logo ao lado do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Na capital francesa ele dividiu ateliê com o também pintor Arthur Timotheo da Costa. Em fotografias enviadas a amigos ou mesmo de seu álbum pessoal, é possível perceber os estudos para a obra, como nesta aqui apresentada (Imagem 2), encontrada no álbum do crítico de arte Nogueira da Silva, preservado na Biblioteca Nacional. Enquanto os dois artistas entretêm-se com algo supostamente ilícito, o olhar é atraído pelos inúmeros desenhos preparatórios.

Chamam a atenção, primeiramente, os desenhos de maior dimensão, painéis erigidos lado a lado com figuras humanas nuas, ou talvez meio-humanas, pois tratavam-se na verdade de criaturas do reino do mar, subaquáticas, mitológicas – sereias e tritões. Nada mal para o salão dançante de um clube da Marinha. Os estudos conservam simultaneamente o processo de criação do artista, registrando as primeiras visualidades de sua concepção para o espaço decorativo, como também o traço derivado da observação do modelo vivo nu, em suas mais diversas poses. Nesse sentido, não é por acaso que vemos apenas os corpos humanos, com poucos ou nenhum elemento ao seu redor; são simples corpos no espaço, como eram muitas das academias.

Somam-se aos painéis os pequenos desenhos, decerto anteriores, que se espalham sobre os primeiros ou nas paredes laterais do ateliê. São literalmente estudos, extenuantes e permanentes estudos, que mesmo após a conclusão do aprendizado oficial os artistas continuavam a produzir ao longo de suas carreiras. Não é difícil associá-los aos maiores, estes provavelmente já correspondendo a primeira fase de execução final das obras, com as suas dimensões exatas para posterior fixação nas paredes do Clube. Além disso, observando detidamente os pequenos estudos podemos traçar as escolhas do artista ao longo do processo. São detalhes de mãos minuciosamente estudadas ou poses alternantes, sistematicamente testadas. Quais delas permaneceram nos painéis centrais, quais foram modificadas? Como elas podem ter alterado a concepção inicial do projeto ou afetado a harmonia final do conjunto?

Para que você, leitor, possa examinar apropriadamente essas mudanças ao longo da obra, em uma espécie de jogo de detetive tão próprio ao ofício do historiador da arte, deixo aqui o link para contemplar em realidade virtual o trabalho final de Helios Seelinger no Clube Naval, realizado há mais de cem anos: https://cartola.org/panoramas/20110614-Clube_Naval_Salao_Nobre/

[1] Leia mais sobre isso em: COLI, Jorge. O corpo da liberdade: reflexões sobre a pintura do século XIX. São Paulo: Cosac Naify, 2010; PEREIRA, Sonia Gomes. Arte, Ensino e Academia: Estudos e ensaios sobre a Academia de Belas Artes do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Mauad X, 2018. [2] Helios Seelinger - A vida criada como obra de arte, por Heloisa Seelinger. Disponível em: https://www.bordoart.com/post/helios-seelinger-a-vida-criada-como-obra-de-arte. [3] VALLE, Arthur. Helios Seelinger, um pintor “salteado”. 19&20, Rio de Janeiro, v. I, n. 1, mai. 2006. Disponível em: http://www.dezenovevinte.net/artistas/artistas_hs.htm. [4] Mais sobre as concepções do termo “desenho”, confira: LICHTENSTEIN, Jacqueline. Do disegno ao desenho. Tradução de Renata Oliveira Caetano. Revista Nava, v. 4 n. 1/2 (2019). Disponível em: https://doi.org/10.34019/2525-7757.2019.v4.32058.


IMAGEM I:

Desenhos de nus masculinos por Helios Seelinger, datados de 1901 e 1900 respectivamente. Carvão sobre papel. Museu Dom João VI, Rio de Janeiro. Fotografias de Arthur Valle.



IMAGEM II:



Um canto do atelier em Paris, de Helios Seelinger. Fotografia p&b. Álbum de fotografias de artistas brasileiros e estrangeiros, de M. Nogueira da Silva. Fundação Biblioteca Nacional, RJ.