ARTE NUA

I

É muito difícil escrever rapidamente sobre algo que se estuda com tanto entusiasmo, que se admira, algo que é mais que um objeto de pesquisa, uma verdadeira paixão. Desde que fomos formalmente apresentados, o tão famoso gênero nu de pintura poderia ser abordado por diversos ângulos. Eu poderia falar sobre como as mulheres aparecem mais nuas nos museus do que os homens, embora dentro das academias de arte o corpo masculino tenha sido mais estudado.


Poderia falar também sobre o olhar do público para o corpo nu, e esse assunto daria pano pra manga, talvez a gente até volte aqui no final. Por agora vamos pensar o nu a partir da arte e para além dela. E para isso, recorro a linguagem que no seu mar de sinônimos e significados nos permite além de estar nu, também poder estar pelado, desnudo, despido, sem ornamentos, sem adornos, cru, desenfeitado, natural, desadornado.


Kenneth Clark nos lembra que a língua inglesa oferece duas formas interessantes para esse ato, nós podemos estar "nude" ou "naked". Se você estiver consciente de que está a mostrar o seu corpo para alguém, de que ali reside uma pessoa pelada e tudo bem com isso, então você está "nude". Se por acaso, você foi pego de surpresa por um vizinho que lhe observa pela janela como num filme de Hitchcock, naquele exato momento que antecede o banho, no qual você deixa as roupas em cima da cama no quarto e corre rapidamente para banheiro. Nesse caso você estava "naked" para o observador.


Em “O importuno” Almeida Junior nos mostra que seria possível estar "naked" e "nude" ao mesmo tempo. Na obra uma modelo que posava nua dentro de um ateliê se esconde atrás de um cavalete e se veste rapidamente enquanto o artista vai atrás da cortina ver quem ousa incomodar aquele momento. Se por um acaso a pessoa entrasse no local sem que a modelo tivesse tido tempo o suficiente para se vestir; para esta pessoa a modelo estaria "naked", mas para o artista que a pintava nua, ela estaria tranquilamente "nude".


O próprio termo “mandar nudes” mostra um pouco dessa relação. Um "nude" é aquela foto que alguém escolhe mandar de seu corpo nu para outra pessoa, no entanto, se essa imagem cai nas mãos erradas essa foto passa rapidamente de um "nude" para um "naked".

II

A obra de arte, muitas vezes, funciona como uma espécie de espelho. E a nossa reação diante de algumas obras é capaz de dizer mais de nós mesmos do que sobre o que se vê. De certa forma, ao olhar um corpo despido, também somos convidados a nos despir e confrontar nossos pudores, nossas concepções.


Nessa semana trabalhamos com diferentes suportes artísticos, inclusive o próprio corpo e nos deparamos com alguns entraves, como a censura do instagram para algumas imagens. É proibido postar pornografia! O que nos leva a questionar a diferença entre arte e pornografia. Sabemos que não existe uma fórmula para definir esses limites, talvez por que não seja interessante que se defina, ou que se responda. Esse é um daqueles casos em que as perguntas e as questões levantadas são mais interessantes do que as respostas definitivas.


Mas ironicamente depois dessa semana consegui desenvolver uma fórmula mágica que responde a essa questão. É fácil: você joga no instagram, se eles permitirem a postagem é arte, se não é pornografia.





Alfred Hitchcock. Janela indiscreta, 1954.


Almeida Junior, O importuno, 1898. Óleo sobre tela. Pinacoteca de São Paulo.


Gustave Courbet. A mulher entre as ondas, 1868. Óleo sobre tela, 65 x 54cm. Metropolitan Museum of Art


Henrique Alvim Corrêa. Mulher nua ou O sapato. Visões eróticas.

 

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