A Primeira Missa no Brasil?

Por Bárbara Ferreira Fernandes

Doutoranda em história pela UFJF.

Atualmente realiza pesquisas sobre a obra “Questão Christie” de Victor Meirelles, e temas sobre a pintura histórica brasileira no século XIX. Membro e pesquisadora do Laboratório de História da Arte da UFJF.


No segundo andar do Museu Nacional de Belas Artes do Rio Janeiro, no salão das obras do século XIX, encontramos ela, ao fundo do corredor, sozinha, imponente, como se flutuasse em nossa direção. À sua frente, estrategicamente instalado, um banquinho de madeira nos ajuda a contemplar a obra e a perceber os seus detalhes. A cruz, ao centro em destaque, é o ponto principal da cena e faz com que nossos olhares saiam do sacerdote até o seu topo e em direção ao céu. Os índios, em primeiro plano, formando uma borda para o quadro, mostram-se intrigados e interessados na celebração. Os jogos de luz e sombra proporcionados pela obra, fazem com que nosso olhar percorra toda a tela e retorne ao centro, à cruz, além de hierarquizar os personagens da representação.


A Primeira Missa no Brasil, obra de Victor Meirelles, datada de 1860, está furiosamente presente no imaginário de boa parte dos brasileiros. Deparamo-nos com ela em livros didáticos, antigas cédulas de dinheiro, montagens, revistas, recriações de cenas e em novelas. Diante de uma pequena referência ao “descobrimento” do país, sem nos darmos conta, nossa mente rapidamente se desloca para a cena eternizada por Meirelles.


Com todos os elementos que uma pintura histórica deve possuir: grande formato, verossimilhança, destaque para o herói, detalhes bem pensados e posicionados, o pintor consegue representar, de forma majestosa, a cena. Parafraseando o crítico de arte Gonzaga Duque: a Primeira Missa só poderia ser o que aí está. O tema de “primeira missa” foi largamente retomado, sobretudo nos países da América Latina, como um importante tema fundacional, ou seja, como marco valioso para a história desses locais. Temos como exemplo, A Primeira Missa no Chile, de Pedro Subercaseaux, a Primeira Missa nas Américas de Pharamond Blanchard e a Primeira Missa em Buenos Aires, de José Bouchet.


Parte de um projeto de consolidação e construção da Nação brasileira, a obra de Meirelles retrata um momento harmonioso, bem vivido, entre índios e portugueses. Ao observarmos a tela nos deparamos com um encontro romântico benéfico e, sem dúvida, extremamente religioso. Meirelles, como bom pintor de história, se inspirou na carta de Pero Vaz de Caminha para sua criação, sem, é claro, deixar de lado seus próprios projetos e ideias para a idealização do quadro. O pintor registra, em tela, o projeto de consolidação da Nação brasileira, em curso no século XIX, que procurava ressaltar a harmonia entre as raças e a beleza da natureza como afirmação da nacionalidade. Esse era um dos pilares dessa nova Nação a ser construída e desse passado em comum que estava sendo forjado.


A pintura, como toda narrativa histórica, é cercada de significados que, muitas das vezes, escapam da alçada do próprio pintor. No início do texto, apontamos que a Primeira Missa está presente no imaginário brasileiro até os dias atuais, deixando de ser considerada, em determinados momentos, uma obra arte de arte com contextos de produção específicos, para se tornar uma ilustração do que verdadeiramente havia sido o “descobrimento”. Nas comemorações de 500 anos do “descobrimento” ocorreram diversas celebrações e, muitas delas, retomaram a obra de Meirelles. A principal foi a recriação da Primeira Missa ocorrida em Porto Seguro, transmitida ao vivo para o restante do país. Esse momento de comemoração e celebração de uma nação pacífica e harmoniosa, preceito do XIX, que vigorava (e ainda está no imaginário de muitos), foi marcado, no entanto, por protestos das tribos indígenas e movimentos sociais e pela intensa repressão policial. Partes da sociedade que foram deixados de fora da comemoração e têm sido negligenciados e extirpados desde 1500.


O projeto gestado pelo Estado e registrado por Victor Meirelles, foi, digamos assim, vitorioso e reforçado por outras ideologias que vieram em governos posteriores. A Nação brasileira foi construída sobre os pretensos pilares de um povo pacífico, harmônico e sem distinção de raças. Essas características estão presentes na obra de Meirelles e, até hoje, arraigadas em nosso pensamento sobre nós, que, por vezes, esconde as contradições, intolerâncias e violências presentes em nossa sociedade. Prova disso, foram as recentes declarações proferidas pelo presidente e vice-presidente da república, ao comentarem o assassinato de João Alberto e os mais diversos casos de racismo ocorridos no país. Ambos ressaltaram o caráter diverso e harmônico do Brasil, afirmando não haver problemas relativos às questões raciais em nosso território.





Victor Meirelles. A Primeira Missa no Brasil, 1860. MNBA



Missa realizada na comemoração dos 500 anos. 22 de abril de 2000. https://acervo.oglobo.globo.com/fotogalerias/comemoracoes-pelos-500-anos-do-descobrimento-do-brasil-9573462


Protestos durante as comemorações dos 500 anos do descobrimento. 22 de abril de 2000. https://www.google.com/url?sa=i&url=http%3A%2F%2Fmemorialdademocracia.com.br%2Fcard%2Fprotesto-marca-500-anos-do-descobrimento&psig=AOvVaw0D3c2bHIae1hsx5X_9AsNj&ust=1607168188465000&source=images&cd=vfe&ved=0CAIQjRxqFwoTCJifqpuetO0CFQAAAAAdAAAAABAJ