A ARTE SENTE

Nessa semana, desvendamos uma pequena parte do universo da arte brasileira, a partir de obras que fazem parte do nosso imaginário como “Abapuru”. É inegável a presença desta obra na cultura visual brasileira, o que corrobora os múltiplos olhares que direcionam o nosso ver. Sabemos muito sobre as cores fortes, as formas desproporcionais, a relação de Tarsila com o movimento modernista e a forma como essa proposta aparece em seu trabalho.


Chamamos atenção ao aspecto melancólico de “Abapuru” que conecta a obra a toda uma tradição de representação, uma iconografia que se instaurou como um hábito entre os pintores de diversos períodos. Segundo Henri Focillon iconografia pode ser concebida tanto como a variação das formas em torno de um mesmo sentido, quanto à variação dos sentidos em torno de uma mesma forma. Tarsila repete a forma de “Melancolia I” de Dürer (1471-1528), ambas tocam o canto do rosto com braço. No entanto, em Dürer é possível observar o olhar atento e a mão em punho que sustenta o peso da cabeça, já em Tarsila a figura parece se relacionar mais a ideia de tristeza, sobretudo, por conta desses olhos em linhas diagonais convergentes que reforçam essa expressão.


A partir desse gesto da mão que toca o canto do rosto a ideia de melancolia e introspecção aparecem com bastante força e essa relação entre ideia e gesto se consolida também fora do mundo das artes.

Como nos lembra Focillon a iconografia não é somente o aspecto plástico, também pode ser o sentido atribuído às formas. As tensões psicológicas que se relacionam com o universo da introspecção podem ser observadas em outras formas de representação. Belmiro de Almeida nos mostra em “A má notícia” ou “Amuada” figuras femininas respectivamente, exibindo um temperamento mais eloquente como se de fato sofresse por algo, ou apenas representada de forma contida, introspectiva.


A obra de arte tem vida própria, ela faz parte de um universo próprio, e para estabelecermos uma relação com esse universo descrevemos o que é visto. É a nossa forma de traduzir a imagem, mas essa tradução jamais será a obra em si, é uma tentativa de aproximação. Da mesma maneira, os sentimentos possuem seu próprio universo, e a tentativa de explica-los é uma espécie de tradução, que por mais detalhada não é o sentimento em si. No entanto, quando observamos esses sentimentos abstratos representados em um suporte, como uma obra de arte, é possível perceber que existem relações entre essas representações que muitas vezes as palavras não dão conta de explicar, mas está ali. Como se os universos se dialogassem.


A arte cumpre esse papel de muitas vezes dialogar com algo que está dentro da gente que nem sempre é possível de se explicar. Talvez os sentimentos representados nessas obras que trazemos hoje, sejam uma forma interessante de representar um pouco do que pode estar sendo sentido nesse momento de isolamento.






Imagem 1: Tarsila do Amaral, Abapuru, 1928, óleo sobre tela, 85 x 72 cm. Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (MALBA)

Imagem 2: Albrecht Dürer (1471-1528). Melencolia I

Imagem 3: Belmiro de Almeida. A má notícia, 1897. Óleo sobre madeira, 168 x168 cm. Museu Mineiro. Belo Horizonte, MG.

Imagem 4: Belmiro de Almeida. Amuada, s/d. Óleo sobre tela, 41,5 x 33 cm (sem moldura). Museu Mariano Procópio, Juiz de Fora- MG.

 

©2020 por Bordô