Arte e Eros



Nem a mais erudita historiadora da arte e nem o crítico com o olhar mais agudo deveriam se levar realmente à sério quando fazem uma afirmação que soe absoluta sobre uma obra de arte. Obras de arte são como, sei lá, uma galinha untada em azeite. Você analisa sua compleição física, reflete sobre sua trajetória e tenta agarrá-la. Sente que ela está na ponta dos seus dedos, mas ela escapuliu mais uma vez, de um modo que até a sensação de que você a tocou parece então um pouco irreal.


Mas esperem, uma poeta portuguesa, Adília Lopes, disse isso de forma bem mais interessante em um poema chamado “A Arte Poética”:


“Escrever um poema/ é como apanhar um peixe/ com as mãos/ nunca pesquei assim um peixe/ mas posso falar assim/ sei que nem tudo o que vem às mãos é peixe/ o peixe debate-se/ tenta escapar-se/ escapa-se/ eu persisto/ luto corpo a corpo/ com o peixe/ ou morremos os dois/ ou nos salvamos os dois”


O texto continua, mas é esse o trecho que nos interessa agora. Seria possível, junto com Adília, falar sobre a poética que é se relacionar com a arte. Ou seja, somos também criadores quando vemos uma criação. Como criadores que somos, nos dois casos, a poesia sempre nos escapa. É o que há de mais amável e mais odiável na boa arte. Nada ali é tão definitivo. Sobre esse aspecto detestável da poética, um escritor estadunidense de quem gostamos por aqui, Ben Lerner, já falou muito bem em um texto, traduzido no Brasil como “O Ódio pela Poesia” e publicado pela Revista Serrote, em sua edição de número 25.


Ben, eu e Marianne Moore, poeta que ele retoma em seu ensaio, poderíamos dizer sobre a poesia, em uma noite que só eu imagino que possa acontecer (Moore morreu, em 1972, e beber uma brahminha com ela significaria que eu morri): “I too, dislike it” ou “Sim, galera, às vezes poesia é um saco mesmo”.


Mas a ideia, neste texto, é falar sobre (por favor, continue mesmo após essa declaração possivelmente pretensiosa) Arte e Amor. Não é nada novo. Há até um ensaio famoso da filósofa Susan Sontag sobre a necessidade de substituirmos a interpretação de obras de arte por uma “erótica da arte”. Neste texto, estou mais próximo de ser um leitor de Sontag, que não concorda completamente com suas palavras, do que alguém que vai fazer uma pregação sobre amarmos a arte. Isto é, quero dizer aqui como a experiência da arte, a meu ver, se aproxima do modo como o Ocidente, um dia, entendeu Eros.


Como os antigos gregos, entre diálogos intermináveis e bebedeiras ainda mais intermináveis imaginaram Eros, o Amor? Como um menino gordo, de cabelos encaracolados, bunda de fora, venda em seus olhos e um arco e flecha em suas mãos, etc? Talvez, mas não é esse o aspecto que nos interessa agora, apesar do detalhe de Primavera, do Botticelli, logo acima, ter te enganado.


No Banquete, de Platão, no qual homens embriagados ficam debatendo por horas sobre o amor até que um deles, Sócrates, sóbrio, resolve tudo ao se lembrar das palavras de uma mulher, Diotima, percebemos que os antigos atribuíram um caráter bastante específico a Eros. Ele é a busca, o desejo. Surge de uma incompletude que configura a todos nós, humanos, e que nos torna insaciáveis. Contudo, não se trata da busca por um par romântico ideal. É bem mais do que isso. Enfim, leiam o Banquete, se puderem. É uma grande conversa de boteco sobre o amor. É também um ótimo livro de filosofia sobre a filosofia, que possivelmente definiu os rumos do saber ocidental desde então e, penso eu, bem poderia ser sobre nossa relação com a arte.


Acontece que nos colocamos em busca por sermos incompletos. O irônico é que, embora incompletos, temos bordas, fronteiras físicas que nos prendem a nós mesmos. Na experiência amorosa, como aprendi lendo outra poeta e ensaísta, Anne Carson, é como se nossos limites físicos se desfizessem. Ela nos ensina em seu “Eros, the bittersweet”, que na lírica grega o amor é compreendido como uma “experiência de derretimento” e que o deus do amor era conhecido como um “derretedor de fronteiras”.


É o que diz também uma antiga, popular e hoje pouco utilizada expressão da língua portuguesa: “eu me derreto por ela/ ele”. Quem nunca se derreteu por alguém? Por essa experiência de derretimento, o amor não é caracterizado, nos textos gregos, como seco, mas sim como úmido, molhado. Uma metáfora também está na música brasileira. Poderíamos citar diversos exemplos. Um amigo, de forma bastante sagaz, até definiu certa vez “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga, o Gonzagão, como “a maior composição musical brasileira sobre amor”. Mas aqui, escolhi citar “Afogamento”, de Gilberto Gil e Roberta Sá, do álbum “Ok ok ok”, de 2018:


“Vou correr o risco de afundar de vez/ Sob o peso da insensatez/ Já sem poder boiar/ Estarei com alguém nariz contra nariz/ O afogamento por um triz/ Tentarei me salvar/ Sempre assim/ Sempre que o amor vaza a maré/ Vou parar bem longe/ Aonde não dá pé/ Difícil de nadar/ Outro dia o fato aconteceu enfim/ Um golfinho-anjo, um boto-serafim/ Chegou pra me ajudar/ Me agarrei/ Àquele corpo liso/ E me deixei levar/ Ao lado, seu sorriso aberto a me guiar/ Então eu relaxei/ E me entreguei/ Completamente ao mar”


É a experiência do amor descrita por Gil, que fala sobre o mais bonito deste estado de liquefação, mas também sobre seus riscos. O que é este afogamento? É a perda de si mesmo num mar que nos distancia das margens, seguras. A música é sobre a experiência de estar em um outro lugar, ser algo que não somos nós. É sobre fazer parte de uma completude nova. Pode soar como algo assustador para nós, tão cientes de nossa individualidade, esta desmarginação. É a experiência de se juntar a algo e fazer parte de um outro ser. É um esquecimento, ao menos parcial e momentâneo, de si.


É o que pode provocar em nós um objeto de arte em um museu. Ou um filme de Tarkóvski. Ou uma série da Netflix. Ou uma música de Gil. É o que há de mágico, no sentido estrito da palavra, na arte. É, contudo, uma experiência arriscada. Um intelectual alemão, Aby Warburg, que inventou há mais de um século uma nova disciplina denominada por ele Kulturwissenschaft [ou Ciência da Cultura], afim de entender a arte, pareceu querer dizer que esta experiência de perda de si era necessária para compreendermos adequadamente a arte, desde que em um momento seguinte nós nos afastássemos desta unidade e conseguíssemos refletir sobre esta experiência.


Fato é que arte e magia estão unidos de modo umbilical historicamente e não só no Ocidente. Sabemos isto pelos santos que decoram tantas casas brasileiras ou pelos pontos de umbanda que ecoam pelas ruas das nossas cidades. O que os une é isso que os gregos chamaram de Eros. É por ele que a arte, mágica, nos derrete para que sejamos, mesmo que por alguns instantes, algo outro. Nesta alteridade, sentimos que mesmo por um momento alcançamos uma completude e nela a compreensão indizível de algo que nos faltava e que sempre tentamos colocar no mundo. Aquilo que está na ponta da língua, mas nos faltam palavras para comunicarmos de forma suficiente. É o que há de mais bonito e de mais terrível na arte, como no amor. Essa busca arriscada é, contudo, o nosso melhor caminho para sairmos de nós mesmos em um tempo em que estamos tão isolados e sozinhos. E não falo somente da pandemia de 2020.



Imagem 1: Sandro Botticelli (Alessandro di Mariano di Vanni Filipepi), Detalhe do Cupido ou Eros, em Primavera. Por volta de 1482. Têmpera sobre painel, 203 x 314 cm. Galleria degli Uffizi, Florença.


Imagem 2: Sandro Botticelli (Alessandro di Mariano di Vanni Filipepi), Primavera. Por volta de 1482. Têmpera sobre painel, 203 x 314 cm. Galleria degli Uffizi, Florença.

 

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