A Angústia Existencial Sartreana no Filme Viver (1952) de Akira Kurosawa

Por Hellen Silvia Marques Gonçalves

Mestra em Artes (Linha de Pesquisa: Cinema) e doutoranda em História pela Universidade Federal de Minas Gerais, financiada pela PROEX/CAPES


Considerado pelo público internacional como um dos maiores realizadores do cinema japonês, o cineasta Akira Kurosawa (1910-1998) nos apresenta uma filmografia composta por mais de trinta filmes que perpassam por temas que mesclam a cultura japonesa e ocidental, adentrando na figura imponente do samurai, no teatro Nô e Kabuki, além de suas adaptações de Shakespeare e Dostoievski. Tal tendência a transpor as fronteiras entre oriente e ocidente levou Kurosawa a ser considerado, no Japão, excessivamente voltado para a cultura ocidental, principalmente se comparado a outros dois diretores consagrados como os grandes nomes do cinema japonês: Yasujiro Ozu (1903- 1963) e Kenji Mizoguchi (1898-1956)[1].


Além da carreira de cineasta, Akira Kurosawa também possuía o talento para a pintura, onde sua rara expressão artística acompanhou sua trajetória no cinema. O uso de cores exuberantes em cenas de paisagens, batalhas, figurinos e maquiagem revelam sua formação artística, em que mesmo nos filmes realizados em preto e branco, existe um empenho estético trabalhado nas cenas com nuances de luz e sombra, movimentos de câmera e uso de contrastes que evidenciam sua direção sensível[2].


Em 1952 Akira Kurosawa realizou Viver, um de seus filmes mais existencialistas, no qual estabelece sua narrativa através da vida de Kanji Watanabe, um veterano burocrata que há décadas trabalha diariamente na prefeitura da cidade. Narrado em duas partes, o ponto de conflito da película decorre quando o protagonista descobre que está com um câncer terminal no estômago, fazendo-o atravessar uma crise existencial entre o seu trabalho e a doença, sendo levado a refletir sobre o sentido da vida por meio de interrogações do presente e reminiscências do passado.


Na cena inicial do filme primeiramente nos é apresentado a doença do protagonista através de um raio x, e posteriormente vemos o personagem em seu trabalho cercado por papéis. Fazendo uso do recurso de voz over, temos a seguinte apresentação pelo narrador:


Ah, eis o nosso protagonista. Mas seria enfadonho apresentá-lo nesse momento. Afinal de contas, ele passa pela vida sem realmente vivê-la. Em outras palavras, ele na verdade, não está vivo. Oh, não, isso nunca vai acontecer. Ele também pode ser um defunto. Na verdade, esse homem está morto há mais de 20 anos. Antes disso, ele até viveu um pouco. E tentou trabalhar duro. Mas agora, quase não se vê traço de sua antiga paixão e ambição. Ele foi dominado completamente pelas minúcias da máquina burocrática e o serviço inútil se desenvolve. Ocupado, sempre tão ocupado. Mas na realidade, este homem não faz absolutamente nada. Ele apenas protege seu lugar. E a melhor forma de proteger seu lugar é não fazer nada. Esse é o sentido da vida? Antes do nosso amigo levar essa questão com mais seriedade, seu estômago estará bem pior, e ele terá desperdiçado muito tempo, e não lhe sobrará muito tempo.


Logo após a ida ao médico, já tendo descoberto a doença e se encontrando em casa, Watanabe não conta para o filho e a nora sobre o câncer terminal, ponto que nos é justificado pela distância que permeia pai e filho neste instante. A música J’ai deux amours de Josephine Baker desencadeia o primeiro flashback do protagonista, que se refere ao dia da morte da esposa e outros que carregam reminiscências sobre o filho. Com esses flashbacks vemos que o personagem não possui uma tomada de consciência voluntária, desencadeada pela morte que está próxima, se comportando como uma tomada de consciência involuntária da sua própria existência, a tomada de consciência do Eu.


Jean-Paul Sartre pontua três etapas condicionantes para a liberdade: a angústia, o desespero e o desamparo[3]. O indivíduo, ao ser responsável pelos seus atos juntamente com a sua subjetividade, acaba por criar uma determinada imagem do homem que escolhe ser, a imagem que o indivíduo transpassa e o reflexo dessa imagem no todo. A tomada de consciência do indivíduo perante o que ele é e o que ele é designando o que será a humanidade gera o sentimento de responsabilidade, criando assim a angústia existencial[4]. O homem, tomando consciência da sua responsabilidade criando essa angústia, recai ao paradigma de que não existe Deus e que deve assumir todas as consequências disso. Se Deus não existe, não existem valores a priori, tudo é permitido e o homem se encontra desamparado[5]. Todavia, na película em questão não nos é delineado tal questionamento sobre Deus, pois Kanji Watanabe em momento algum nega os valores espirituais, na verdade o personagem não deixa nenhum julgamento definido sobre o divino.


A tomada de consciência involuntária que leva à contingência do protagonista recai no seu próprio passado e o passado se torna uma incontingência, um apego à segurança. A tomada dos flashbacks como volta explícita ao passado e este representando a incontingência, uma vez que o presente se aproxima da morte e a alteridade desarticula a imagem que Watanabe possuía de si mesmo. A lembrança da morte da esposa recai em uma insegurança que é preenchida pela garantia do amor do filho, que, no entanto, é refutada no momento presente.


A descoberta da contingência pela personagem nos delineia um percurso tracejado pelas manifestações do incômodo, introduzindo a relação entre a modificação do sujeito causada pelo incômodo e a aproximação da revelação da contingência na existência. As modificações no sujeito implicam mudanças na sua relação com as coisas. Tais modificações são sentidas antes e fora do sujeito (nas coisas e nas pessoas com quem ele se relaciona), ambiguidade característica da relação entre a consciência e as coisas[6]: se as coisas mudam ou se a percepção da consciência perante elas muda primeiro, causando uma confusão no sujeito que é sentida no próprio Watanabe, no momento em que a personagem desencadeia o sentimento de viver o presente, gastando parte do dinheiro poupado durante os anos de trabalho e se embriagando em festas, sendo em que em uma dessas pede ao pianista para tocar sua música favorita:


A vida é tão curta

Se apaixone querida donzela enquanto seus lábios ainda são rubros

E antes que você se esfrie

Pois não haverá amanhã

A vida é tão curta

Se apaixone querida donzela

Enquanto seus lábios ainda são negros

E antes que o seu coração perca o frescor

Pois o dia de hoje não volta mais.


Uma figura de importância fundamental para a travessia existencial de Watanabe é a personagem Toyo Odagiri, uma jovem que acabara de abandonar o emprego no escritório da prefeitura e que se comporta como ponto de alteridade. Saindo diversas vezes com a jovem para comer e se divertir, o protagonista parece enxergar na mulher um contraponto a sua própria existência; enquanto Odagiri está sempre sorridente, procurando viver intensamente cada momento, Watanabe está sempre cabisbaixo e com uma expressão triste no rosto. Em dado diálogo entre os dois personagens, o moribundo confessa à jovem que a inveja, que antes de morrer quer viver um dia como Odagiri, ao que a moça responde que no novo emprego realmente se sente útil, que é divertido e que com a fabricação dos brinquedos se sente como se estivesse brincando com cada bebê do Japão. Neste instante é que o personagem descobre que não é tarde demais.


Por conseguinte, Watanabe, agora de volta ao escritório, busca por algum projeto útil para a sua vida e para os outros indivíduos. Com paciência e humildade, o personagem consegue abrir caminhos no sistema burocrático para realizar a construção de um parque em uma área pobre da cidade. A partir dessa ação, vemos um elemento de fundamental importância para a condição existencial do protagonista: o engajamento. Watanabe, após a descoberta da doença, reconhecendo a si mesmo como ser sozinho, perpassando pela angústia existencial, pelo desespero e desamparo, atinge uma ação que lhe confere sentido e o torna em sua própria morte, em que aparentemente chega ao seu fim cantando sua música favorita segundo o relato do policial, um ser livre e referência para os demais companheiros de trabalho.


A metamorfose do indivíduo desmorona a confiança depositada no ser e uma perda da estabilidade da aparência de ser. Segundo Franklin Leopoldo e Silva “é nesse sentido que as coisas desvelam precisamente quando deixam de ser, já que o ser que as caracterizava consistia somente na projeção do conjunto de expectativas do sujeito”[7]. Esse conjunto de expectativas refere-se à permanência das coisas, que se mantendo do modo que eram anteriormente ocasionam uma sequência estável na qual o sujeito encontra uma continuidade de si. A mudança é instável, a aproximação da morte do ser ocasiona o questionamento do passado e a insegurança da continuidade do presente. Sendo assim, o personagem busca esse passado enquanto incontingência e segurança, já que o presente não a fornece. No entanto, a relação enfraquecida com o filho e a vontade de viver intensamente o tempo que lhe resta, acaba lhe causando o incômodo.

Na medida que há a dissolução do Eu, há também a do “desabamento do mundo”, um mundo constituído de objetos e relações subordinadas ao sujeito[8]. Sartre mostrou que


(...) o Eu só aparece como habitante das profundezas da consciência em virtude de um truque: tomamos o que construímos à frente e a fora da consciência e o introduzimos “lá dentro”, para que nossas ações tenham uma referência constante, firme, personalizada. É algo de que necessitamos, um fundamento que unifique nossos estados. Mas esse produto psíquico é exterior. Quando o mundo se desestrutura, ele desaparece junto com as coisas. ” (...) “Por isso, o Ego participa do desabamento do mundo: uma vez que a exterioridade desarticulada, uma vez anulado o quê das coisas, também já não é possível responder à pergunta pela pseudo-interioridade: quem? [9].


Assim sendo, Watanabe quando enxerga que o mundo não é aquilo o que ele pensa, seu Eu desarticula juntamente com o seu mundo, resultando na angústia existencial. Encontrando-se desamparado, responsável por tudo o que fez, ou melhor dizendo, por tudo o que não fez, já que teve uma vida de apatia e quietude, o personagem se encontra em completo desespero, já que se vê imerso em sua própria solidão perante a aproximação da morte. Adquirindo o conhecimento de que uma ação depende da nossa vontade e do conjunto de probabilidades que a torna possível a partir do diálogo com Toyo Odagiri, Watanabe se volta para o engajamento como sentido único de sua existência, sendo concretizado pela construção do parque.


Isto posto, Akira Kurosowa escreveu o roteiro de Viver juntamente com Shinobu Hashimoto e Hideo Oguni, no qual a partir da narrativa de Watanabe enxerga-se um Japão ocidentalizado, americanizado do pós-guerra, onde a desumanização social consequente da máquina burocrática de conveniências, subserviências e silêncios reduzem o indivíduo comum a mecanismos de um relógio. O diretor japonês, ao inserir o protagonista comprimido entre o fim próximo e a descoberta da doença, o faz reverter esse fundamento no momento em que encontra sentido para a vida por meio do engajamento.



Imagens: Akira Kurosawa. Viver, 1952.


FICHA TÉCNICA

Título original: Ikiru.

Título em português: Viver.

Produção: Toho Company.

Produtor: Sôjirô Motoki.

Diretor: Akira Kurosawa.

Roteiro: Akira Kurosowa, Shinobu Hashimoto e Hideo Oguni.

Música: Fumio Hayasaka.

Maquiagem: Sadako Okada.

Edição: Kôichi Iwashita.

Elenco: Takashi Shimura, Nobuo Kaneko, Kyôko Seki, Makoto Kobori, Kumeko Urabe, Yoshie Minami, Minoru Chiaki, Kamatari Fujiwara, Shinichi Himori, Haruo Tanaka, Miki Odagiri, Bokuzen Hidari, Minosuke Yamada

Preto e Branco – 143 minutos.

Ano de Lançamento: 1952.


Referências bibliográficas:

[1] WEBER, Daniela de Araújo. As influências estrangeiras e a transposição cultural na obra de Akira Kurosawa através da análise do filme Kumonosujô (蜘蛛巣城, Trono Manchado de Sangue, 1957). 2001. 137 p. Dissertação (Mestrado em Literatura Comparada). Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre. p. 06. [2] Ibidem, p. 12. [3]SARTRE, Jean-Paul. O Existencialismo é um Humanismo. Tradução: João Batista Kreuch. 3. Ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014. p. 23. [4]Ibidem, p. 21. [5]Ibidem, p. 24. [6]SILVA, F. L. Ética e Literatura em Sartre – Ensaios Introdutórios. São Paulo: Editora UNESP, 2004. p. 81. [7] Ibidem, p. 82. [8]Ibidem, p. 88. [9]Ibidem, p. 90.

 

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